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domingo, 20 de novembro de 2016

LEITURA DE DOMINGO

Graça e Desgraça

            Otto Lara Resende
RIO DE JANEIRO, 20/04/1992 – Tendo mais de uma vez escrito sobre a sina do poeta, nem sempre fui entendido como queria e esperava. Não sou poeta, porque não tive o dom, que é dado de nascença. Nem por isto deixo de reconhecer a importância da poesia para a cultura de um povo. E até para o destino da humanidade. Sou do tempo em que se dizia que o mundo precisava mais de poesia do que de carvão. E também que, se o mundo tivesse de ser salvo, por certo o seria pelos poetas.

Nem por isto deixo de reconhecer que a sina do poeta, a sua sorte, não está entre as mais desejáveis, sobretudo num século que cultiva acima de tudo o conforto dos bens materiais. Para confirmar o que digo, posso me valer do testemunho de muitos poetas. Escolho um, pela eloqüência com que se pronunciou a respeito. Trata-se de Paul Claudel. Poucas pessoas são capazes de suportar a vocação artística, diz ele. A arte é perigosa para a imaginação e a sensibilidade.

Basta ver a maior parte dos poetas. Dão às vezes um espetáculo de completo desequilíbrio. São vidas freqüentemente frustradas. Até Chateaubriand e Victor Hugo foram vítimas de um profundo desequilíbrio. Os poetas não têm a paz dos homens de ciência. Ou dos homens de ação. Um Pasteur e um Lesseps se realizaram num êxito saudável. Foram vidas felizes. Já poetas, e escritores também, conhecem experiências dolorosas. Quem gostaria de ser um Baudelaire ou um Verlaine?

O martirológio dos artistas é mais que exuberante. E não falo dos poetas malditos, que a meu ver constituem um enigma. Ninguém em sã consciência pode desejar para si ou para um filho a vocação artística. Marginal, nada tem de atraente. Penso na minha irmã Camille. Graça terrível, o poeta aparece neste mundo sem graça por um decreto dos poderes supremos. É o que está em Baudelaire. Será que o mundo sentiria falta de Verlaine, se não tivesse existido?

Nenhum pai de família é bastante louco para desejar ao filho a vocação de um Rimbaud. Quem poderá dizer que a vida de Gide foi desejável? Ser poeta é mais ou menos como ser médium. Vivem de si mesmos, do seu equilíbrio. O artista vive à procura de sua essência, quase sempre voltado para os lados negativos e não para o lado bom. Veja o caso de Proust. Haverá vida pior do que a dele? Até aqui, é Claudel quem fala. Um poeta, pouco importa o que dele se pense.

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domingo, 7 de agosto de 2016

LEITURA DE DOMINGO

A flor no asfalto

            Otto Lara Rezende
Conheço essa estrada genocida, o começo da Rio-Petrópolis. Duvido que se encontre um trecho rodoviário ou urbano mais assassino do que esse. São tantos os acidentes que já nem se abre inquérito. Quem atravessa a avenida Brasil fora da passarela quer morrer. Se morre, ninguém liga. Aparece aquela velinha acesa, o corpo é coberto por uma folha de jornal e pronto. Não se fala mais nisso.

Teria sido o destino de dona Creusa, se não levasse nas entranhas a própria vida. Na pista que vem para o Rio, a 20 metros da passarela de pedestres, dona Creusa foi apanhada por uma Kombi. O motorista tentou parar e não conseguiu. Em seguida, veio um outro carro, um Apolo, e sobreveio o segundo atropelamento. A mesma vítima. Ferida, o ventre aberto pelas ferragens, deu-se aí o milagre.

Dona Creusa estava grávida e morreu na hora. Mas no asfalto, expelida com a placenta, apareceu uma criança. Coberta a mãe com um plástico azul, um estudante pegou o bebê e o levou para o acostamento. Nunca tinha visto um parto na sua vida. Entre os curiosos, uma mulher amarrou o umbigo da recém-nascida. Uma menina. Por sorte, vinha vindo uma ambulância. Depois de chorar no asfalto, o bebê foi levado para o hospital de Xerém.

Dona Creusa, aos 44 anos, já era avó, mãe de vários filhos e viúva. Pobre, concentração humana de experiências e de dores, tinha pressa de viver. E era uma pilha carregada de vida. Quem devia estar ali era sua nora Marizete. Mas dona Creusa  se ofereceu para ir no seu lugar porque, grávida, não pagava a passagem. Com o dinheiro do ônibus podia comprar sabão. Levava uma bolsa preta, com um coração de cartolina vermelha.

No cartão estava escrito: quinta-feira. Foi o dia do atropelamento. Apolo é o símbolo da vitória sobre a violência. Diz o poeta Píndaro que é o deus que põe no coração o amor da concórdia. No hospital, sete mães disputaram o privilégio de dar de mamar ao bebê. A vida é forte. E bela, apolínea, apesar de tudo. Por que não?
                                                  (Folha de S. Paulo, 30/05/1992)

domingo, 6 de março de 2016

LEITURA DE DOMINGO

O teste da rosa

               Otto Lara Resende
       Digamos que você tem uma rosa. Uma só. Antes que eu continue, ela me interrompe: de que cor? Pensei na rosa, mas não pensei na cor. Cor-de-rosa, digo. Ela faz uma carinha de quem não aprova. Rosa cor-de-rosa, que falta de imaginação! Branca, me corrijo. Branca, não, ela corta. Vermelha. Tá bem. Uma rosa vermelha. Vermelhinha? Sim, vermelhíssima. Da cor de sangue vivo.

       Digamos que você tem uma rosa, recomeço. É a única rosa que existe no mundo. A última? Não interessa. No caso é a única. E é sua. Digamos que você quer dar essa rosa a alguém. E se eu não quiser dar? Aí a história acaba. Continuo? Continua. Você tem que dar essa rosa a alguém. Uma pessoa só? Sim, uma só. Fui dar corda, a menina não para de falar. Verdadeira matraca. Já quer saber por que tem de dar rosa. Se é dela e única, não vai dar a ninguém. Vai vender. 

        Mas a história é assim: é a única, a última rosa do mundo. E você tem que passar pra frente. Se não der, ela explode e queima a sua mão. Carinha de nojo, ela resmunga: rosa que explode e pega fogo, essa não. Finjo que não ouço e vou adiante. Você vai entregar essa rosa a quem mais a merece. A faladeira quer saber se a rosa é bonita. Lindíssima, já disse. Fresquinha. A última e mais bela rosa do mundo. Não, não pode guardar. Nem pode vender.

        Novas tentativas de sair do script, mas eu fecho todas as portas. Não pode mudar. Não interessa quem inventou. É o teste da rosa. Existe desde o princípio do mundo, digo convicto. E cale a boca, por favor. Mais um minuto e a rosa estoura na sua mão. Não é bomba, mas estoura. História inventada é assim. Rosa estoura e pronto. Você tem que dar a rosa pra alguém que a merece. A pessoa que você mais ama. Dona do seu coração. Vale, vale tudo. Gente grande, ou criança. Quem você quiser. Não, não podem ser duas pessoas. Mesmo casadas, morando na mesma casa, não pode. Também não vale. Pétala por pétala, não. É a rosa inteira, perfumada. Uma beleza. Já disse que é a mais bonita do mundo. Nunca mais vai existir outra igual. E depressa, senão explode. Na sua mão, não no vaso. Fresquinha, com gotas de orvalho que brilham como pequenos sóis. Vamos logo, quem? A quem você dá essa rosa? Ela sorri, zombeteira, e me faz a pergunta fatal: você está crente que eu dou pra você, não está?

(Otto Lara Resende, in “Bom dia para nascer”)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

domingo, 24 de maio de 2015

LEITURA DE DOMINGO

Livraria de Antigamente

                                  Otto Lara Resende
Outro dia, falando sobre o Rio de hoje, Antônio Callado disse que sente falta de uma livraria como aquela de antigamente. E citou a Freitas Bastos e a Civilização Brasileira. A Freitas Bastos ficava no andar térreo do Liceu de Artes e Ofícios, no prédio que foi abaixo para dar lugar à atual sede da Caixa Econômica Federal. O local era privilegiado — esquina da Rua Bittencourt da Silva com Largo da Carioca. No primeiro andar desse prédio, ficavam a redação e a oficina d’O Globo. Ali, Callado começou a sua vida de jornal, ao lado de Nelson Rodrigues e do hoje editor Alfredo Machado, antes de passar ao “Correio da Manhã” e de ir para a Inglaterra trabalhar na BBC durante a guerra.

A referência à Freitas Bastos presumo que esteja ligada, na reminiscência de Callado, a essa antiga sede d’O Globo. por onde passei vários anos depois. Quanto à Civilização Brasileira. está associada à editora do mesmo nome e, claro, ao nosso amigo Enio Silveira, o bravo intelectual que desde cedo se projetou como editor e livreiro. Como editor de Callado, Ênio lançou a 1ª edição de “Quarup”. Como autor, também eu passei pela Civilização. com uma novela que foi incluída no livro dos Sete Pecados Capitais. Enio teve a idéia e me incumbiu do pecado da avareza.

Com uma ponta de nostalgia, Antônio Callado devia estar pensando num tipo de livraria que já não existe hoje no Rio — grande estabelecimento em que era possível encontrar de tudo. Tudo aqui tanto se refere a livro como a gente. Ou pelo menos certa classe de gente chegada a livros: o professor e o aluno, o romancista consagrado e o poeta inédito, o erudito em busca de uma raridade bibliográfica e o curioso atrás de uma novidade. Essas livrarias dos anos 40 e 50 ainda conservavam uma atmosfera da remota tradição do salão literário. Não era apenas uma loja para vender livros. Eram também um ponto de encontro para o bate-papo, a troca de idéias e de fuxicos.

Não sei se há uma história das livrarias do Rio. Sei, porém, que ela anda dispersa em muitos livros de memórias, em biografias e em crônicas da cidade. A livraria faz parte da vida cultural de uma nação. No caso do Rio, que ainda se ousa chamar de capital cultural do Brasil, as livrarias têm uma história inseparável da própria história de nossas letras. Para não ir muito longe e ficar num exemplo notório, bastaria evocar Machado de Assis na Livraria Garnier. Era lá, na Rua do Ouvidor, que à tarde ele se tornava visível, cercada pelos velhos amigos e pelos novos admiradores. Na mesma rua, anos mais tarde. na Livraria José 0lympio, Graciliano Ramos assinava o ponto todo santo dia, num grupo a que pertencia também José Lins do Rego.

A propósito da entrevista de Antônio Callado, andei me lembrando das livrarias de antigamente em Belo Horizonte. Mera coincidência, leio num jornal de Minas a noticia da morte de Oscar Nicolai. Tinha 78 anos. Nasceu em Buenos Aires e aos oito meses foi para Porto Alegre. Em 1930, instalou-se em Belo Horizonte, como representante da Editora Globo. Estabeleceu-se primeiro na Av. Paraná. Comprou depois um bar na Av. Afonso Pena e ali conheceu o esplendor e a glória, com a livraria situada no endereço comercial mais caro da cidade. Era impossível importar livros da Europa, sobretudo da França, por causa da guerra. Com um espaço de catedral, a Livraria Nicolai tinha tudo que editava no Brasil e abriu um horizonte para a América Latina, em particular para Argentina, Chile e México.

Mais do que isso, porém, o que o Nicolai nos abriu foi um crédito baseado mais em nossa fome de leitura do que em nossa capacidade financeira. Fora o felizardo do Sábato Magaldi, que tinha o respaldo paterno, todos nós atolávamos em dívidas. Bom psicólogo, ou excelente vendedor, o Nicolai deixava que levássemos os livros para casa, a titulo de experiência, com direito a devolução. Claro que ninguém conseguia devolver nada e tinha que cair com o dinheiro, mesmo a prestação.

Quando submarinos nazistas afundaram navios brasileiros, a Livraria Alemã foi saqueada e incendiada. Foi um ato digno de Hitler. A família Blubm mudou-se para o Rio. O Nicolai prosperou e cresceu. A livraria era espaçosa e acolhedora, onde encontrávamos os livros, nossos amigos, e os nossos amigos, amigos dos livros. Com o sistema de crédito pioneiro e cordial, Oscar Nicolai estimulou o vicio impune da leitura e contribuiu para a nossa definitiva dependência desse objeto de consumo, todavia sagrado, que é o livro.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

FRASE DO DIA

"Tenho para mim que sei, como todos os brasileiros, os três primeiros minutos de qualquer assunto."
Otto Lara Resende

domingo, 2 de junho de 2013

domingo, 12 de maio de 2013

LEITURA DE DOMINGO

HISTÓRIA TRISTE

Vinícius de Moraes

Outro dia, meu amigo, o escritor Otto Lara Resende, estava mineirando ali na esquina de México com Pedro Lessa, quando lhe veio a vontade de tomar um "sustincau". Não sei bem o que seja um "sustincau", mas pela descrição que me fez Otto, creio tratar-se de um híbrido de "toddy" com picolé. Disse-me ele ser coisa de sustância e eu acreditei piamente. Ao que parece, existe uma carrocinha do produto no local indicado, e tanto ele como Paulo Mendes Campos são fregueses da estranha beberagem; ou chuparagem - não sei ao certo. 

Sei de uma coisa: que Otto estava por ali manipulando um "sustincau", quando viu chegar uma família - pai pobre e doentio, mãe ainda moça, desgastada e sem brilho, e filhinha anêmica, de rostinho chupado. Uma família brasileira típica, poderíamos dizer. A menininha, ao ver o Otto sorvendo o "sustincau", precipitou-se para a carrocinha gritando que também queria um: "um igual ao daquele moço". Os pais chegaram-se contrafeitos. 

O Otto, que nada perdia da cena, nem do "sustincau", viu o pai perguntar quanto era, depois convocar a mulher e os dois confabularem, com o resultado de ela dizer-lhe que só havia para a passagem de volta. Tinham vindo ao IPASE para exame médico e trazido o justo necessário. Chamaram a menininha e tentaram explicar-lhe, sem dizer a razão exata porque, naturalmente, eram gente de brio e Otto estava por perto, urubusservando. Mas a menininha tinha água na boca: 

- Ah, me dá um, papai! Um igual ao do moço! 

- É muito gelado, filhinha! Faz mal... 

- Ah, me dá um, papai! 

O homem da carrocinha, que não estava seguindo a história, mas ouvira as últimas frases, interveio: 

- Tem sem ser gelado, s'or! 

O casal se entreolhou. Diz Otto que o encabulamento do homem era total. Ele foi para um canto com a mulher e os dois puseram-se a esgravatar na bolsa. Mas só havia cascalho. 

- Não pode ser, não, filhinha! 

A mulher, nervosa, chegou-se para a menininha: 

- Pare de pedir coisas, ouviu? Que menina! Tem os olhos maiores que o estômago. Vam'embora! E não quero ouvir nem mais uma palavra! 

Os olhos tristes da garota lambiam o "sustincau" do Otto. Ela suspirou, fazendo beicinho - e foi aí que o próprio Otto, meio contrafeito, dirigiu-se ao pai. 

- Pode deixar ela tomar um. 

A menininha precipitou-se para a carrocinha. O homem, de olhos baixos, agradeceu, no auge da vergonha. Diz Otto que engrolou umas palavras e meteu o pé. 

Bom Otto. Se houvesse céu, ele já estava com o seu lugar garantido. Não é bem o que o ministro da Justiça chama, com uma tal vernaculidade, de "menoridade desvalida"; mas que é uma menoridade um bocado pinimbada, sem nem um tostãozinho para tomar um "sustincau", ah, isso é!

domingo, 28 de abril de 2013

LEITURA DE DOMINGO


Para ler ouvindo Um Homem Chamado Alfredo

Vista Cansada

 OTTO LARA RESENDE


Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou. Fugiu enquanto pôde do desespero que o roía – e daquele tiro brutal.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.