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terça-feira, 4 de novembro de 2014

PRIMEIROS PARÁGRAFOS INESQUECÍVEIS

"Eu sei que não deveria estar escrevendo estas coisas. Conhecidos meus, mais ou menos amigos e mais ou menos petistas, me aconselham bondosamente a me dedicar à literatura, à estética, à teologia... É impressionante como as pessoas se preocupam comigo! Ou com elas..."
Marx enganou Jesus... e Lula enganou os dois - J. H. Dacanal - 2006

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

PRIMEIROS PARÁGRAFOS INESQUECÍVEIS

"Quem desce, rumo a leste, o topo da suave colina em que se localizava, no século XVIII, a redução de Santo Ângelo Custódio passa, algumas centenas de metros abaixo, o arroio Itaquarichim. Ali, quebrando a nordeste e seguindo o traçado da antiga estrada que levava aos campos de Cruz Alta, atravessa, cerca de sete quilômetros adiante, o arroio Santa Bárbara. Subindo e descendo coxilhas de relevo mais ou menos acentuado, outros tantos quilômetros adiante na desde sempre tortuosa e hoje encascalhada via o viandante passa, mais ou menos a meio caminho de sua jornada, o arroio das Pombas, um filete d'água a correr, por sobre um lajeado basáltico, rumo a seu destino - o mesmo de seus iguais -, a margem direita do Ijuí-Grande."

Riobaldo & Eu - A Roça Imigrante e o Sertão Mineiro - J. H. Dacanal - 2009

domingo, 17 de março de 2013

LEITURA DE DOMINGO


J. H. DACANAL

Publicado no Caderno de Cultura - Zero Hora - 29/05/2009

O faxineiro de direita*

Condomínios não são colmeias. São zoológicos de animais exóticos e variados.Eu tenho uma vizinha nova no pedaço. Ela é da minha idade, ou pouco menos. E também mais ou menos redonda, ou pouco mais. E tem uma voz grossa, como o Mateus, o travesti invertido de Beleza Pura. Dias atrás ela me encontrou no elevador. E lascou, à queima-roupa, com voz rouca:– O senhor faz o quê? Perplexo, dei uma de minhas respostas anódinas:– De tudo um pouco. De escrever livros a fazer faxina. E ela, mortal:– E o senhor faz faxina para fora? Balbuciei um “Ainda não”, e então fui salvo pelo elevador. Ela saiu. E fiquei pensando na resposta que deveria ter dado. Que talvez pudesse ser um “Sim”, porque eu não fizera nenhum grande investimento no passado, não fora preso – a não ser por uma ou duas horas, mas fora salvo por um ex-delegado do DOPS –, não aleijara inocentes, não executara ninguém, não assaltara bancos, não roubara cofres, nem fora vigarista ideológico. Portanto, não tinha qualquer direito a uma gorda indenização que me permitisse deixar de trabalhar. Além do mais, moro na Cidade Baixa e não no Moinhos de Vento, não tenho empregada, não tenho carro, a piscina de plástico do terraço apodreceu e limpo o meu próprio banheiro e, portanto, tenho na ponta da língua a resposta àquela famosa pergunta dos anos 1960: se todos forem iguais, quem limpará o banheiro do primeiro-ministro? O primeiro-ministro, ora! É que eu sou de direita. Um faxineiro de direita. E isto que eu poderia ser um ministro de esquerda... Ou ministra. Afinal, passo roupa olhando a novela das seis. Só não uso bóbis. É que não tenho cabelo.

* “Não é ficção”, alertou o autor antes de entregar o texto à reportagem de ZH. “É tudo real, palavra por palavra. De fato, só não uso bóbis”