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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A CRÔNICA DO CAJO

Segurança

A fala de Sartori, quando da posse do novo chefe da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, em março deste ano, já dava o tom do que pensava a turma dele, a mesma que usurpou o poder federal com a valiosa ajuda de outra turma que tem o mesmo pensamento.

Na ocasião, em frente aos policiais, conseguiu dizer: “A segurança é tarefa do governo, mas também é tarefa da sociedade”. Ou seja, joga para a sociedade a responsabilidade por sua segurança. Empresas de segurança privada agradecem. Aos poucos vamos chegando a um novo "apartheid" que vai limitar os movimentos das pessoas e mesmo sua liberdade de ir e vir. Em nome da segurança, determinadas áreas de uma cidade, por exemplo, poderão restringir a circulação de “estranhos”. Não proibir, restringir. Muitos seguranças armados andando em uma quadra ou área e com poder de detenção inibiriam indesejáveis. Seria mais seguro, com certeza. E tentador (e eu aqui dando ideia...tsc, tsc, tsc...).

E na mesma área haveria pelo menos um policial militar e um guarda municipal, estes com poder de prisão. Mas nada é assim espontâneo, algo deve ser feito que viabilize isso. Bom, que tal por lei? Elejam-se para Câmara Municipal vereadores financiados por caixa 2 e que se comprometam a elaborar as leis convenientes aos que lá os colocaram na lide legislativa. Não duvidem que se criem novos condomínios fechados. Não esses planejados e cercados. Não, será uma cerca invisível em quadras no meio da cidade. Quem puder pagar por sua segurança não terá com que se preocupar. Quem tem dinheiro tem poder. Quem tem dinheiro pode comprar a informação e vender a mesma como quiser, desde que lhe beneficie. Quem tem poder, faz lei. Leis que garantam exclusividades. Quem não tem dinheiro, assiste da senzala.

A liberdade não é para todos. Os que tomaram o poder não querem isso, não podem querer, porque povo livre não os elege. E me pergunto que tipo de sociedade é esta que estamos parindo, uma sociedade em que ter é mais importante do que ser, e olha que isso não é de hoje, mas acho que as pessoas estão se dando mais conta de que esse consumismo é insano. É uma sociedade que quer exclusivismos e precisa da senzala para seus caprichos. E vai continuar produzindo criminalidade e cada vez mais vai querer se proteger de algo que ela mesma cria e alimenta. Um estribilho sem fim. Atrasaram o Brasil novamente.

Tem razão, Sartori, a responsabilidade pela segurança é da população. Então a população pode segurar o senhor, ir até a ponte do Guaíba e... raios!, que mania de dar ideia.

domingo, 4 de setembro de 2016

A CRÔNICA DO CAJO

Novos tempos

                   Cajo 
Em Nova Iguaçu/RJ, uma professora de inglês sofreu sindicância porque explicou aos alunos por que a sua categoria estava entrando em greve. Acusação: doutrinação ideológica. Na mesma região, uma professora de geografia também sofreu investigação porque promoveu o evento “Diversidade e Sustentabilidade”, que tratava de temas como violência contra a mulher, homofobia, transfobia e acessibilidade. Foi acusada pelo advogado criador da página "Endireita Londrina". Acusação: doutrinação ideológica. 

Em Curitiba, lá mesmo, uma socióloga foi afastada das aulas porque seus alunos apresentaram uma paródia da música "Baile na Favela", citando Marx (em tempo: outros alunos apresentaram outros trabalhos sobre outros pensadores, de outras cores ideológicas). Acusação: doutrinação ideológica. 

O fundador da chamada Escola sem Partido fez representação, pedindo a exoneração de uma professora que desenvolveu um trabalho com seus alunos porque as referências eram Chico Buarque, Milton Santos, Paulo Freire e, até mesmo, a Veja. O 'sem noção' chegou a sugerir que os alunos deveriam ler Reinaldo de Azevedo (sic). 

Essas professoras, em razão do que foi divulgado por sites fascistas, estão sendo perseguidas por aqueles que juram que o governo que está sendo afastado tinha um projeto de poder. Estão sendo ameaçadas por pessoas que acreditam na chamada grande imprensa que grita insistentemente que o partido que está saindo queria se perpetuar no poder e que, para isso, faria uso de todos os meios escusos. Estão sendo perseguidas por pessoas que caíram no conto de que democracia é alternância no poder. 

Eu pergunto qual o partido que não tem projeto de poder? E mais: será que não entendem que o que provoca a alternância no poder é o voto da maioria? E que não é porque é uma democracia que deve obrigatoriamente haver alternância? Pergunte aos tucanos e demos se, depois de eleitos para o governo federal, por exemplo, se depois do primeiro mandato, abririam mão de concorrer ao segundo porque democracia exige alternância no poder. Eles diriam que todos são livres para disputar quantas vezes queiram, afinal, somos uma democracia. E paneleiros aplaudiriam. E se alguém chamá-los à razão e disser que antes diziam outra coisa? "Que antes"? 

Nossa democracia está sendo golpeada com o silêncio dos que bateram panelas crentes de que chegou o fim da corrupção e que, com o usurpador, tudo voltaria ao normal. Saíram às ruas protestando legitimamente e foram convocados por organizações tipo MBL, Revoltados online, entre outras, embora acreditassem que era tudo espontâneo. Ovelhas pastam espontaneamente. Pediram escolas e hospitais padrão FIFA, mas aceitam que golpistas vendam o país e suas riquezas, cujos frutos seriam destinados para educação e saúde. Não teremos mais escolas e hospitais com os royalties do pré-sal, e sim escolas onde o professor não poderá lecionar, mas sim apresentar conteúdos de forma mecânica e previamente selecionados pelas cabeças pensantes atualizadas com ideias do século 19. 

Uma vez Lima Barreto disse que no Brasil não havia povo, e sim público. Quando a direita consegue se organizar e ir às ruas, o que se poderia querer, em uma sociedade democrática, era um debate de ideias, um confronto legítimo que pudesse dar a todos a oportunidade de, no voto, elegerem os governantes. E o que temos? Um golpe, um atentado à democracia. Esta que durante toda a ditadura buscamos. Onde você estava naquela época? Eu estava nas ruas e pelo Brasil afora tentando organizar resistências. É a isso que vou me dedicar daqui para frente, até ver a democracia ser restaurada no país que é de todos, e não só de uma parcela ínfima que se vale da desinformação e da mentira para ascender a um poder que nunca teria pelo voto.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

A CRÔNICA DO CAJO

Aula


- Vamos à nossa aula de hoje. Nosso assunto é a formação da Terra. Pedro, quando a Terra surgiu?

- Em 26 de outubro de 3.960 AC, fessor.

- Muito bem. Alguém sabe a hora? Maria?

- Às nove horas da manhã!

- Ótimo. Agora, quem chegou a essa conclusão? Sim, Isabel?

- Foi o Arcebispo Ussher, em 1650.

- Lucas, responda como ele chegou a essa conclusão?

- Lendo a Bíblia.

- Estou vendo que vocês estão estudando muito. João, que livro é esse que você tem nas mãos?

- Ah, profe, é um livro que meu pai ganhou do pastor. Tem um autógrafo do Marco Feliciano.

- Posso ver? Olha só, “Os fundamentos da família brasileira”, de Eduardo Cunha. Grandes homens esses, grandes brasileiros, acabaram com o comunismo antirreligioso no país.

- Além de fundamentar que a base da família é composta por um homem e uma mulher.

- Isso mesmo, Mateus. Qualquer outro tipo de união é anticristã e antinatural. Está escrito. Por falar nisso, voltemos ao nosso livro sagrado.

- O do Cunha?

- Hehe... Poderia ser, André. Mas falo da Bíblia. Vamos voltar ao arcebispo e seu cálculo. Como ele fez para determinar a data de criação da Terra? Quem responde agora? Vamos ver... Marcos, por favor.

- Bom, ele calculou somando o tempo de vida de cada pessoa citada no Gênesis.

- Isso! Alguma dúvida, Ana?

- Não, professor, ele começou calculando do momento da criação até o dilúvio e depois daí até o patriarca Abraão. Depois somou esse tempo com o decorrido até o nascimento de Jesus.

- Maravilha. E depois? Sim, Tomás?

- Aí ele acrescentou o ano em que vivia e deu um total de 5.610 anos.

- Então quer dizer que hoje a Terra desde sua criação tem 5.976 anos. 

- Mas, professor, e os anos bissextos?

- De onde você tirou essa ideia absurda, Maicossuel?

- Foi minha mãe que falou que antes tinha um ano com um dia a mais a cada quatro anos antes da implantação do novo calendário.

- E o que sua mãe entende se ela foi gerada a partir do pecado? Que nem você, que nem pai tem.

- Eu tenho sim, só não o conheci. E Adão e Eva não tiveram filhos também? Não foram também fruto do pecado?

- Não, seu comunistazinho, foram fruto do amor. Qualquer outra situação é que é pecado. A relação sexual deve ser somente para a procriação.

- E o prazer?

- Blasfêmia! Você vai queimar no fogo do inferno! Como castigo, você deverá decorar o livro de nosso amado Bolsonaro para a semana que vem, “As bases do fundamentalismo neonazista”, sem falta. Quanto aos meus santos alunos, vimos na aula de hoje Ciências, Geografia, História, Matemática e Biologia. Na próxima aula estudaremos por que os vulcões são manifestações do mal.

Antônio Neis (Cajo) 

domingo, 24 de abril de 2016

LEITURA DE DOMINGO (A CRÔNICA DO CAJO)

Bela, recatada e do lar

                      Cajo
E a bela, recatada e do lar Penélope ficou anos esperando por seu amado Ulisses, que havia partido para lutar na Guerra de Tróia. 

Em uma de suas aventuras guerreiras, Ulisses se depara com Circe, a deusa do amor físico e das feitiçarias. A própria, havia enfeitiçado alguns de seus homens e transformado-os em porcos. Ulisses, avisado por Hermes (mensageiro), preparou-se para o encontro com ela e, não caindo em suas armadilhas, conseguiu que a deusa desfizesse o encanto, dando como garantia a certeza de que ficaria com ela em seus aposentos por um tempo. 

Enquanto isso, Penélope tecia um sudário, dizendo que quando o terminasse se casaria com um dos pretendentes, já que não sabia se Ulisses estava vivo ou não. Seu amor pelo marido, entretanto, fazia com que aquilo que ela tecia durante o dia fosse desfeito durante a noite. Então, ela, dona esposa do golpista mor, bela, recatada e do lar, enquanto ele andava às voltas com suas Circes, transforma-nos em porcos. 

Um pouco de Chico Buarque ilustra um pouco tudo isso.

Mulheres de Atenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas
Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas, serenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A CRÔNICA DO CAJO

Alerta aos navegantes!

Você que sai às ruas pedindo impeachment está dando um tiro no seu próprio pé. Fique alerta para não dizer depois que não foi avisado. 

Só para constar, uma série de projetos estão em curso no Congresso, camuflados pela crise política e pelo processo de impedimento. Eles estão tramitando às escuras e estão sendo aprovados, e a mídia golpista não dá destaque. Vou citar só alguns projetos que vão lhe trazer prejuízo:

1. Regulamentação da terceirização sem limite permitindo a precarização das relações de trabalho.
2. Instituição do acordo extrajudicial de trabalho permitindo a negociação direta entre patrão e empregado.
3. Impedimento do empregado demitido reclamar na Justiça do Trabalho.
4. Prevalência do negociado sobre a legislação trabalhista.
5. Redução da jornada com redução salarial.
6. Estabelecimento do Simples Trabalhista criando uma outra categoria de trabalhador com menos direitos.
7. Extinção da multa por demissão sem justa causa.
8. Fim da exclusividade da Petrobrás na exploração do pré-sal.
9. Alteração do Código Penal sobre a questão do aborto, criminalizando ainda mais as mulheres e profissionais da saúde.
10. Retirada do texto das políticas públicas do termo "gênero" e instituição do Tratado de San Jose como balizador das políticas públicas para as mulheres, o que é um retrocesso.
11. Instituição do Estatuto da Família não reconhecendo como família a que não for composta por pai (homem) e mãe (mulher), ou seja, grupos LGTBs e mulheres em geral ficam fora do alcance das políticas públicas do Estado.

São mais de 40 projetos tramitando. Então, se liga!

É um direito seu se manifestar a favor do impedimento da única pessoa que não foi indiciada por nada para colocar no poder pessoas que já foram e que querem acabar com seus direitos trabalhistas e sociais. Isso, por si só, é doentio. Se não acredita em mim, pesquise. Como não sai na imprensa que você acompanha, é muito fácil dizer que tudo isso é mentira, e se acredita que minto, o seu caso é muito mais sério do que você imagina. Eu sou brasileiro e prezo por todos, até por você, embora a recíproca não seja, infelizmente, a mesma, já que você resolveu achar que é mais fácil ser montado do que montar. Só faço esse alerta realmente pensando no futuro que nos aguarda.

"A história é um carro alegre, cheio de um povo contente que atropela indiferente todo aquele que a negue"

segunda-feira, 21 de março de 2016

A CRÔNICA DO CAJO

Linguajar

Já que a questão agora é moralidade (Imaginem, defensores da inconstitucionalidade se sentem chocados com o palavreado do Lula, vejam só!), então, aqui vai uma sugestão: Lula, modere suas palavras, tem gente incomodada, gente de bem, que nunca falou um palavrão na vida entre paredes, que nunca xingou ninguém, ilibados, idôneos, de moral sem contestação. Então diga: prostituta que te deu à luz, líquido resultante de alguma relação sexual, mulher com aquilo roxo, vai tomar no ânus, bando de filhos de mulheres de conduta duvidosa segundo a moral cristã ocidental, pipi, coitado e mal pago, molengas.

Tenho certeza que soarão melhor aos ouvidos dessas pessoas. Talvez os que grampeiam tuas ligações não entendam esse linguajar mais culto e achem que é algum código para alguma outra coisa. Por exemplo, pipi pode ser piscina, ou, por extensão, lago, e com eles, pedalinhos. Pronto, manda prender!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A CRÔNICA DO CAJO

GENTES DE BENS

De volta da Pinheira, onde passei duas semanas e tive a alegria de estar com meus amigos. 

Sempre ótimo! Só que – sempre tem um senão – algumas coisas que andei escutando enquanto estava na areia curtindo a beleza do lugar me trouxeram um misto de indignação e tristeza. E tornaram tudo um pouco mais feio. Foram três episódios em dias distintos, mas sempre o mesmo tipo de pessoas que faziam os comentários. Bem instalados em suas barracas se divertindo, conversando, bebendo, fumando, tudo normal, direito de todos. De todos? Parece que pelos comentários não.

Episódio 1: caminhando na areia um casal, ele negro e ela branca e loira. E o comentário de um grupo logo atrás de mim foi “vê se pode, uma loira com esse negão, no que nossa praia tá virando”; e outro veio em cima e disse “no que nosso país tá virando”. 
Episódio 2: no dia seguinte; agora com outro grupo, mas nos mesmos moldes do primeiro. Quando uma rapaziada passa com seus dreadlocks veio o comentário fácil de quem certamente nada entende disso: “aqueles ali não lavam o cabelo há mais de dois anos” (risadas fartas pelo comentário inédito), seguido pela observação de que é a gurizada que acampa lá no Vale da Utopia, entre a Praia de Cima e a do Maço.

Episódio 3: pois em outro dia e mais outro grupo diferente, mas igual, observa a mesma rapaziada e seus dreads passeando nas areias com sacolas se dirigindo para o vale e então o comentário de um bombadão de academia: “bando de maconheiros, nossa praia não é mais a mesma”, e ouvem-se murmúrios de lamentações e mais um comentário: “e gente de bem tem que conviver com isso”.

Bom, vamos por partes. Nossa praia? Exclusividade? Nada diferente pode frequentar os mesmos lugares dessas pessoas, então, pelo que vejo. Eu vou para a Pinheira há quase 30 anos e não me lembro de ter visto vocês por lá alguma vez. Dou o desconto de vocês já estarem frequentando a praia há algum tempo, mas são insignificantes e, por isso, não notados, a não ser quando resolvem comentar aquilo que lhes desagrada. Dentro da lógica da meritocracia da qual certamente vocês são fãs, eu teria muito mais direito de dizer que a praia é minha e amigos meus mais ainda. Mas somos pessoas boas, convivemos com a diversidade e com todos, até com vocês. Qual o problema de um casal não ser o ideal dentro dos seus parâmetros e do que vocês acham que deva ser uma família? Digo isso porque me parece evidente o conservadorismo explícito quando de um comentário preconceituoso. E, bombadão, a gurizada faz uso de uma erva natural enquanto você se dopa com química de laboratório para parecer o cara. E se dizem gente de bem. Acho que não, acho a minha definição mais apropriada. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A CRÔNICA DO CAJO

                                Sobre burocracia e afins

Ontem estava lendo uma entrevista do Luís Augusto Fischer para a Culturalíssima sobre sua vida em Paris com a família e uma coisa me chamou a atenção, a questão da burocracia. Disse o Fischer que por lá a burocracia é a favor do cidadão e que enquanto a parada não se resolve o funcionário público não sossega. 

Imediatamente, lembrei da campanha do Sérgio Jockyman para a Prefeitura de Porto Alegre, acho que pela década de 80. Ele fez uma comparação com a Prefeitura de Paris e disse que a capital francesa, bem mais populosa que a capital gaúcha, tinha cerca de 20% do total de funcionários públicos em relação a Porto Alegre. 

Criou-se no Brasil a cultura do burocrata de plantão, aquele funcionário público (?) que faz as coisas em ritmo lento, que se soma ao infindável número de carimbos necessários para que algo avance para aprovação e muita coisa acaba mofando nos escaninhos dos setores dos departamentos dos gabinetes das secretarias. Via de regra, mal pago. 

Talvez por aí se entenda porque ele descarrega suas frustrações no público a quem deveria servir. Ao mesmo tempo, lembro de como funciona a política no Brasil e na necessidade de se ajeitar espaços para todos os aliados em nome de uma tal governabilidade, leia-se compra de votos, um câncer que se espalha por todos os governos. Que bom que se investigue. E aí surge o problema, quando funcionários públicos, quer sejam da Polícia Federal ou mesmo juízes, mostram suas cores partidárias e omitem, escondem, protelam ou mesmo esquecem processos que já foram carimbados por várias pessoas e que acabam se perdendo nos escaninhos dos setores dos departamentos dos gabinetes das secretarias. Ou mesmo nas gavetas deles mesmos, o que tem sido uma prática comum e mais atual dentro dos recônditos da nossa burocracia. 

Tem o funcionário mal pago que faz as coisas como se fosse obrigação. Tem o funcionário muito bem pago que não faz a sua obrigação por motivos ideológicos. A Folha de São Paulo fez um editorial falando sobre como a justiça tarda e...falha, referindo-se aos processos "esquecidos" sobre casos de corrupção comprovada na atual oposição. 

No dia em que todos  forem realmente julgados por todos os mal-feitos e não só alguns, começarei, talvez, a dar créditos à justiça e à burocracia. Mas em um país em que se vende a cultura do levar vantagem em tudo, fica difícil imaginar um dia desses.

sexta-feira, 13 de março de 2015

COLUNA DO CAJO

MALVINAS OU FALKLANDS?

O descobrimento do arquipélago é controverso. Ingleses, espanhóis e holandeses reivindicam a descoberta. Em 1690, os ingleses a batizaram de Falklands, em homenagem ao patrocinador da viagem, realizando o primeiro desembarque efetivo nas ilhas. Entretanto, em 1598, o holandês Sebald de Weert faz o primeiro avistamento realmente confirmado do arquipélago. 

Em 1764, o francês Louis Bougainville estabelece uma base naval na Malvina Oriental (nome derivado de Malouine, em referência à cidade francesa de Saint-Malo). Em 1765, o inglês John Byron desembarca na Malvina Ocidental. Em 1766, a França vende sua base para a Espanha e esta se coloca contra a presença inglesa. A disputa é resolvida no ano seguinte, determinando-se que cada país controlaria uma porção do arquipélago, cabendo aos ingleses a porção ocidental - mas não realizam uma ocupação efetiva - e ao espanhóis a porção oriental. Em razão das lutas pela independência na América do Sul, a Espanha se retira das ilhas. 

Em 1827, a Argentina inicia a colonização do arquipélago e a anteriormente francesa Port Louis agora é Puerto Soledad. Mas, em 1833, o Império Britânico envia uma fragata de guerra, reivindica a posse e anuncia sua reintegração. Não tendo como resistir, os argentinos que estavam na ilha retornam ao continente e os britânicos iniciam sua ocupação, colonizando-a em definitivo e alterando o nome de Puerto Soledad para Port Stanley. 

A Argentina nunca deixou de reclamar a posse das ilhas. Em 1982, em meio à ditadura de Leopoldo Galtieri, a Argentina promove um ataque ao arquipélago. Mergulhada em uma crise política e econômica e com o governo militar caindo em descrédito, a busca da reintegração das ilhas seria uma alternativa e também uma solução para o governo que, nesse momento, apelava para o patriotismo, ficando evidente que tudo passava também por um viés ideológico. 

Anteriormente, em 1965, a Argentina havia conseguido que a ONU estabelecesse uma resolução tratando a questão como sendo um problema colonial. Não tendo sido resolvida a questão. A junta militar que governava a Argentina resolve atacar. Subestimando o potencial bélico britânico e não contando com o apoio dos EUA, juntamente com o Chile – que disputava o controle do Canal de Beagle no extremo sul do continente com a Argentina. Nesse momento, o TIAR – Tratado Interamericano de Assistência Recíproca – foi colocado à prova e se demonstrou ineficaz. O mesmo foi concebido em 1947, no Rio de Janeiro, e versava que um ataque a qualquer país signatário seria um ataque contra todos que assinaram o tratado. Naquele momento, o TIAR era mais um acordo inserido no contexto de contenção do comunismo nas Américas. 

Em 1982, os governos Reagan e Thatcher já articulavam as políticas do neoliberalismo. Os EUA não podiam se colocar contra os ingleses. Os esforços dos demais países que assinaram ficaram no âmbito diplomático. A Argentina estava sozinha. Não custa lembrar que o Reino Unido e os EUA são países do Conselho Permanente de Segurança da ONU e nele têm direito a veto. Em junho de 1982, o Reino Unido vence a guerra e expulsa os argentinos. Importante igualmente é lembrar que o conflito não ficou restrito às Malvinas/Falklands. O mesmo se estendeu a outros dois conjuntos de ilhas ocupados pelos britânicos: Georgia do Sul e Sandwich do Sul, também ocupadas pelos argentinos na guerra.

Qual a importância estratégica das ilhas? 

As ilhas fazem parte de um arco de ocupação britânica no oceano Atlântico: Tristão da Cunha, Ascensão, Santa Helena, Malvinas/Falklands, Georgia do Sul e Sandwich do Sul. O controle dos caminhos no Atlântico era uma necessidade que se impunha ao grande império colonial britânico e ainda hoje se impõe. Ao mesmo tempo, a ocupação das ilhas mais próximas à Antártida supostamente facilitariam a exploração do continente austral em futuras negociações. 

Especificamente nas Malvinas/Falklands, a exploração de combustíveis fósseis confere ao arquipélago importância econômica. A Argentina reivindica um mar territorial de 200 milhas e, assim, o arquipélago estaria em seu território. Recentemente o Brasil afirmou a disposição de ampliar seu mar territorial (Zona Econômica Exclusiva) para 300 milhas, em razão do petróleo do pré-sal. 

Por fim, o governo inglês acusar a Argentina de colonialista só deve ser um déja vu ...

Ilhas Ascensão e Santa Helena (esta, a sudeste da indicada
pelo círculo vermelho).
Ilha de Tristão da Cunha.
Georgia do Sul e Sandwich do Sul estão no canto superior direito do mapa.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A CRÔNICA DO CAJO

ENQUANTO ISSO, NUM CANTO OBSCURO QUALQUER, OUVE-SE O SEGUINTE DIÁLOGO...

- Como vão as coisas?

- Agora tudo se ajeitando.

- Que sorte o outro ter morrido.

- Verdade, infelizmente, não era o que eu queria.

- Não mesmo?

- Bem, foi desígnio divino. E a tua campanha, Aeves Nécio?

- Olha, Marilva da Sina, estava tudo bem, a mídia pautando minha campanha, editorializando as notícias, até requentaram o assunto da refinaria e todo dia falam do mensalão e outras bobagens pra dar munição ao conservadorismo.

- E o mensalão de vocês?

- Que mensalão? (risos irônicos)

- No caso da refinaria só acharam uma culpada, né? A Diuma.

- Tudo bem arrumado. Aliás, por falar nisso, devemos acabar com ela, Diuma vez por todas. (risos escrachados)

- (risos contidos)

- O Babosa também ajudou um montão e pode mais.

- Mas ele não se aposentou?

- Sim, mas o filho ganhou um emprego com aquele apresentador megaoportunista coxinha

- Nécio, tu falando isso?

- Ato falho.

- (risos cínicos)

- Ele pode estar ouvindo. (risinhos)

- Eles ouvem e sabem de tudo, Marilva. (risos nervosos)

- Sempre soube disso.

- Mas, Marilva, fiquei decepcionado contigo.

- E o que fiz para merecer tal decepção?

- Se acovardou.

- (olhos fuzilando)

- Sim, você voltou atrás em suas posições depois que um "evangélico" te censurou publicamente.

- Coisas da política.

- Da nova? (risos irônicos e cínicos)

- Vou ter que governar com eles. (risos nervosos)

- É, mas foi covarde. Tem que ser como eu, firme e forte.

- É? E o que vai fazer agora?

- Renunciar."

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O COMENTÁRIO DO CAJO

Em dezembro de 2012, um incêndio criminoso queimou os arquivos do Metrô de São Paulo, quando o escândalo do trensalão tucano começou a tomar corpo. Segunda-feira, um incêndio destruiu as dependências da prefeitura de Cláudio, a mesma cidade do aeroporto dos Neves. 

E, por incrível que pareça, agora me aparecem pessoas acreditando em teorias da conspiração e que o avião do Eduardo Campos foi abatido quando ainda não se sabe qual foi a causa. Mas posso ajudar nisso. 

Foi assim: ao saber que o Eduardo Campos iria ser candidato, a Dilma mandou treinar um urubu e o ensinou a ler; depois, mandou ele fazer voos em Santos, e se um dia um jato executivo de prefixo PT-AFA sobrevoasse a cidade com o Eduardo Campos dentro, era pro urubu (que fez pós em terrorismo com o Hamas) se suicidar entrando direto na turbina do avião. Assim, o urubu iria para o paraíso onde urubus fêmeas estariam a sua espera. 

Tentador, não?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A CRÔNICA DO CAJO

Há alguns dias, o artigo do Cajo sobre aquecimento global foi postado sem o final (o estagiário responsável pela falha já foi defenestrado). Ei-lo na íntegra.

Coisas sobre o aquecimento global

Dias atrás, um aluno me perguntou sobre o aquecimento global, se era ou não uma farsa. Em verdade, ele se referia a uma entrevista no Programa do Jô, no dia 02/maio/2012 (alguns meses antes do mundo acabar...), em que um professor da USP, climatologista, falava sobre a farsa do aquecimento global, no seu entender. Disse-me o aluno que ficou sem saber o que estava acontecendo e que o tal professor parecia muito convincente dada a sua convicção sobre o assunto (redundei). Resolvi assistir novamente a entrevista. E cada vez me convenço mais de que o professor é um, sei lá, não quero ofender ninguém, mas, por favor, no mínimo falta a ele honestidade intelectual. 

Vamos ao que ele disse na entrevista. Ele simplesmente disse que não existe aquecimento global (que é apenas uma hipótese, o que por si só já é besteira), que o desmatamento na Amazônia é um mito e que não provoca nenhuma influência no clima, já que a floresta mesmo desaparecendo pode voltar a se formar depois de uns 20 anos, e que a camada de ozônio não existe. Para ele, tudo isso é piada. Piada é você, professor! Todos nós somos movidos segundo certos interesses e quero saber quais são os seus. Os meus são a preocupação com aquilo que você chama de farsa. Você diz que não há problemas no desmatamento da Amazônia porque há um aquífero (Alter do Chão) e que o mesmo por si só fornece água ou pode fornecer água para a floresta. Bom, o problema é que não existe nenhuma raiz que tenha mais de 3,5 km de profundidade para atingir tal reservatório e é óbvio que não é por aí. Depois fica fazendo jogo de palavras e diz que a vegetação é o espelho do clima - coisa do século 19 - e completa afirmando que a floresta tropical existe porque chove, não chove porque tem floresta. Cruz credo! A vegetação como resultado exclusivo da ação climática é uma visão ultrapassada.

Contrapondo-se a esta visão unidirecional entende-se hoje que há uma interação entre a floresta e o clima, principalmente se levarmos em conta as florestas tropicais. Pesquisas recentes demonstraram que 75% da chuva que se precipita na floresta amazônica voltam para a atmosfera na forma de vapor juntamente com a transpiração das plantas, o que nos dá a evapotranspiração (evaporação da água do solo e a perda de água pelos vegetais). Na Amazônia, 50% da precipitação vêm da evapotranspiração e o restante dos oceanos, trazida pelos ventos alísios. Ou seja, a floresta não é conseqüência do clima e que o atual equilíbrio climático é que depende da interação entre a atmosfera e a paisagem vegetal. Assim, o desmatamento teria como consequência a diminuição da evapotranspiração e haveria uma menor quantidade de vapor d’água na atmosfera que resultaria em uma menor precipitação, prolongando os períodos com menos chuvas, trazendo déficit de água nos solos e mesmo uma maior oscilação na temperatura. Os rios voadores, expressão interessante para o fluxo de vapor de água do norte para o sul do país, trariam menos umidade para regiões que dependem dos mesmos para que chova, como na região central da América do Sul. Vejam só, se não chove, haverá menos água nas cabeceiras dos rios, e o volume dos mesmos diminuiria e muitos destes rios abastecem grandes bacias hidrográficas, inclusive a Amazônica. E o que isso provocaria? Ora, profundas alterações no regime dos rios e também no potencial hidrelétrico e em todo ecossistema hídrico das bacias atingidas. 

Cabe lembrar que no Cerrado brasileiro temos as nascentes de rios de três grandes bacias hidrográficas do país: Paraná, Amazônica e São Francisco. Mas não ficou por aí, ele disse que a camada de ozônio não existe! Ou seja, o que filtra os raios ultravioletas do sol, um Sundown fator 50? E que o efeito estufa é uma física impossível. Então alguém me explica, desenhando, se possível, como a vida pode vicejar na Terra. 

Mas o mais interessante de tudo não é isso. Em julho/agosto de 2012, um famoso cientista, talvez o mais cultuado entre os descrentes do aquecimento global, o senhor Richard Muller, publicou um estudo em que afirma que a ação humana está interferindo no planeta. A divulgação da mesma veio cerca de um mês depois que se constatou um derretimento crítico nos glaciares da Groenlândia e a redução da banquisa (água do mar permanentemente congelada). Ora, assim como a floresta tropical, as regiões polares são como se fossem um ar condicionado para a Terra. Funciona assim: durante o verão a banquisa recua, e a partir do outono, ela se expande novamente. Só que esta expansão está ficando menor em razão do efeito estufa (ah, desculpa, não existe efeito estufa). O degelo não é exclusividade da Groenlândia e ocorre simultaneamente no Alasca e no norte canadense. Com tal diminuição da quantidade de gelo, não haveria mais como controlar as temperaturas no hemisfério norte, ou seja, o gelo das geleiras/glaciares são importante controle climático. Veja a ilustração abaixo.

A foto está no site www.nasa.gov, no tópico terra, e mostra a extensão da banquisa como deveria estar (linha amarela) e como estava no dia 26/8/2012.
Voltando ao Professor Muller, ele mesmo admitiu que não esperava que sua pesquisa o levasse a tal conclusão, mas, como cientista, tinha que se render às evidências. Muller é Professor de Física na Universidade de Berkeley e integra uma equipe que há anos realiza pesquisas sobre o clima na Terra e de como as mudanças na temperatura se relacionam com as atividades humanas ou fenômenos naturais como atividades solares e vulcânicas. 

Segundo os dados da pesquisa e com registros de temperaturas que remontam há 250 anos – os dados da ONU têm 100 anos menos – a temperatura na Terra nesse período aumentou cerca de 2,5°F e, segundo o relatório final, tal aumento é fruto da emissão de gases de efeito estufa, uma vez que a curva de emissão de dióxido de carbono coincide e se ajusta com a curva do aquecimento global A mesma pesquisa traz dados bem mais significativos e preocupantes que os dados da ONU e seu IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) ao afirmar que a maior parte desse aquecimento (0,8°C) se deu nos últimos 50 anos e pode ser atribuído às atividades humanas, sendo que antes de 1956 uma maior atividade solar teria contribuído em parte para o aquecimento do planeta. Mas ressalta a pesquisa que hoje a contribuição das atividades solares é insignificante. 

Em pesquisas futuras serão também tomados os dados da temperatura dos oceanos, o que contribuirá para tornar mais visível para a humanidade o grave problema do aquecimento global e que são os homens e suas atividades quase que totalmente a causa disso. 

E então, professor Felício? Sua entrevista foi em maio e em julho você foi desmentido por alguém que não é alarmista como muitos ambientalistas são, mas que teve a honestidade intelectual de reconhecer que seu ceticismo era exagerado. Espera-se que você tenha essa dignidade. Mas acho que é esperar demais, afinal, vão fazer dois anos e até agora nada...

terça-feira, 15 de abril de 2014

A CRÔNICA DO CAJO

Coisas sobre o aquecimento global

Dias atrás, um aluno me perguntou sobre o aquecimento global, se era ou não uma farsa. Em verdade, ele se referia a uma entrevista no Programa do Jô, no dia 02/maio/2012 (alguns meses antes do mundo acabar...), em que um professor da USP, climatologista, falava sobre a farsa do aquecimento global, no seu entender. Disse-me o aluno que ficou sem saber o que estava acontecendo e que o tal professor parecia muito convincente dada a sua convicção sobre o assunto (redundei). Resolvi assistir novamente a entrevista. E cada vez me convenço mais de que o professor é um, sei lá, não quero ofender ninguém, mas, por favor, no mínimo falta a ele honestidade intelectual. 

Vamos ao que ele disse na entrevista. Ele simplesmente disse que não existe aquecimento global (que é apenas uma hipótese, o que por si só já é besteira), que o desmatamento na Amazônia é um mito e que não provoca nenhuma influência no clima, já que a floresta mesmo desaparecendo pode voltar a se formar depois de uns 20 anos, e que a camada de ozônio não existe. Para ele, tudo isso é piada. Piada é você, professor! Todos nós somos movidos segundo certos interesses e quero saber quais são os seus. Os meus são a preocupação com aquilo que você chama de farsa. Você diz que não há problemas no desmatamento da Amazônia porque há um aquífero (Alter do Chão) e que o mesmo por si só fornece água ou pode fornecer água para a floresta. Bom, o problema é que não existe nenhuma raiz que tenha mais de 3,5 km de profundidade para atingir tal reservatório e é óbvio que não é por aí. Depois fica fazendo jogo de palavras e diz que a vegetação é o espelho do clima - coisa do século 19 - e completa afirmando que a floresta tropical existe porque chove, não chove porque tem floresta. Cruz credo! A vegetação como resultado exclusivo da ação climática é uma visão ultrapassada.

Contrapondo-se a esta visão unidirecional entende-se hoje que há uma interação entre a floresta e o clima, principalmente se levarmos em conta as florestas tropicais. Pesquisas recentes demonstraram que 75% da chuva que se precipita na floresta amazônica voltam para a atmosfera na forma de vapor juntamente com a transpiração das plantas, o que nos dá a evapotranspiração (evaporação da água do solo e a perda de água pelos vegetais). Na Amazônia, 50% da precipitação vêm da evapotranspiração e o restante dos oceanos, trazida pelos ventos alísios. Ou seja, a floresta não é conseqüência do clima e que o atual equilíbrio climático é que depende da interação entre a atmosfera e a paisagem vegetal. Assim, o desmatamento teria como consequência a diminuição da evapotranspiração e haveria uma menor quantidade de vapor d’água na atmosfera que resultaria em uma menor precipitação, prolongando os períodos com menos chuvas, trazendo déficit de água nos solos e mesmo uma maior oscilação na temperatura. Os rios voadores, expressão interessante para o fluxo de vapor de água do norte para o sul do país, trariam menos umidade para regiões que dependem dos mesmos para que chova, como na região central da América do Sul. Vejam só, se não chove, haverá menos água nas cabeceiras dos rios, e o volume dos mesmos diminuiria e muitos destes rios abastecem grandes bacias hidrográficas, inclusive a Amazônica. E o que isso provocaria? Ora, profundas alterações no regime dos rios e também no potencial hidrelétrico e em todo ecossistema hídrico das bacias atingidas. 

Cabe lembrar que no Cerrado brasileiro temos as nascentes de rios de três grandes bacias hidrográficas do país: Paraná, Amazônica e São Francisco. Mas não ficou por aí, ele disse que a camada de ozônio não existe! Ou seja, o que filtra os raios ultravioletas do sol, um Sundown fator 50? E que o efeito estufa é uma física impossível. Então alguém me explica, desenhando, se possível, como a vida pode vicejar na Terra. 

Mas o mais interessante de tudo não é isso. Em julho/agosto de 2012, um famoso cientista, talvez o mais cultuado entre os descrentes do aquecimento global, o senhor Richard Muller, publicou um estudo em que afirma que a ação humana está interferindo no planeta. A divulgação da mesma veio cerca de um mês depois que se constatou um derretimento crítico nos glaciares da Groenlândia e a redução da banquisa (água do mar permanentemente congelada). Ora, assim como a floresta tropical, as regiões polares são como se fossem um ar condicionado para a Terra. Funciona assim: durante o verão a banquisa recua, e a partir do outono, ela se expande novamente. Só que esta expansão está ficando menor em razão do efeito estufa (ah, desculpa, não existe efeito estufa). O degelo não é exclusividade da Groenlândia e ocorre simultaneamente no Alasca e no norte canadense. Com tal diminuição da quantidade de gelo, não haveria mais como controlar as temperaturas no hemisfério norte, ou seja, o gelo das geleiras/glaciares são importante controle climático.

quarta-feira, 26 de março de 2014

A CRÔNICA DO CAJO

A noite que mudou a América

Chego de viagem e tenho a sorte de assistir "The Beatles - A noite que mudou a América", na comemoração dos 50 anos da apresentação dos Beatles no show de Ed Sullivan, um dos ícones dos talk show nos EUA do final dos anos 40 até o início da década de 70. 

Um dos momentos engraçados do programa, em fevereiro de 1964, foi quando o apresentador pergunta se eles tinham algum problema com as drogas, e George responde, zombando, que não tinha nenhum problema com qualquer tipo de droga e faz a mesma pergunta aos outros três, que respondem da mesma forma. Jornalistas às vezes fazem cada pergunta... Talvez a memória esteja me traindo, mas acho que foi nesse programa (Alguém aí pode confirmar?).

O documentário foi gravado em 27 de janeiro (levado ao ar em 9 de fevereiro), em Los Angeles (fonte Wikipedia). Nele,  temos David Letterman, que hoje apresenta seu talk show no mesmo teatro em que Ed Sullivan recebeu os Beatles, entrevistando Paul e Ringo, e temos também vários rostos conhecidos, ou não, se revezando no palco ou aparecendo na plateia. Um deles é de Yoko, sempre buscada pelas câmaras, junto com Sean Lennon, o que me pareceu que era para deixar claro que John estava presente. Não percebi se estavam os filhos de George, não os conheço. Quando o Paul me ligar vou me queixar por ele não ter me apresentado. 

No final, um momento só com Ringo e outro só com Paul, os dois juntos e por fim toda a gente que andou tocando e cantando nesse dia. Um prêmio para quem adivinhar qual foi a última música. Imperdível. Reprise sábado, dia 29, às 00h25min. Para gravar. Teve muita coisa boa. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

A CRÔNICA DO CAJO

Coisas de estrada

No caminho para Santa Cruz do Sul, na manhã de hoje, dois fatos, aparentemente sem ligação, ocorreram. Aparentemente. 

Por volta das 9 horas, estou passando em frente ao posto da Polícia Rodoviária Estadual, em Taquari. Ali, a velocidade é de 40 km/h. Estou nessa velocidade e vejo, no acostamento, saindo do posto, uma viatura. Ela continua no acostamento e eu penso que vão me deixar passar para depois ingressar na rodovia. Em se tratando de nossa PRE, é esperar demais. Diversas vezes comigo, e por relatos de amigos, demonstraram prepotência.

Simplesmente após eu passar o posto, a viatura entrou na estrada, na minha frente, sem dar sinal (vão se multar?) e passou a andar entre 40 e 50 km/h. Logo em seguida ao posto, cerca de 100 metros à frente, há uma placa sinalizando 80 km/h. Bem, eles continuaram na mesma velocidade por cerca de 1 km, quando pude ultrapassar, sinalizando a ultrapassagem e a volta à pista em que estava. Prudentemente, não fiz nenhum sinal ou gesto demonstrando indignação, sabedor que sou da ignorância (pejorativamente falando) de pessoas que se "acham" porque estão travestidas de defensores da lei, no caso, nas estradas. Passei e fui embora, cuidando para não exceder a velocidade. É possível que nesse momento os dois ocupantes da viatura tenham se felicitado por ter atrapalhado a vida de outro trouxa que anda pelas estradas. Não duvidem.

Cerca de meia hora mais tarde, tem início o programa Polêmica, da Rádio Gaúcha, apresentado por Lauro Quadros. O apresentador anunciou que o programa do dia seria sobre os acontecimentos nos países bálticos e que envolviam a Rússia, a União Europeia e os EUA, além da Ucrânia. Sr. Lauro Quadros, os países bálticos são Letônia, Estônia e Lituânia e estão localizados para o norte da Ucrânia e Crimeia, que não são, obviamente, países bálticos. Ucrânia e Crimeia (uma península) estão no Mar Negro, e os países bálticos, no Mar Báltico. Como estava chegando em Santa Cruz do Sul, desliguei o rádio e não fiquei sabendo se ele se retratou ou se algum convidado o corrigiu.

Ora, se o radialista desconhece quais são os países bálticos, ele ignora a verdade. Creio ter sido um deslize involuntário. Como o acontecido com o Galvão Bueno numa das corridas de Fórmula Um, no ano passado ou em 2012, não lembro ao certo, em que ele disse que uma das etapas no Oriente Médio havia sido cancelada devido a problemas políticos no país, e completou dizendo que devíamos respeitar as etnias locais, no caso xiitas e sunitas. Não é demais? Mas, como aconteceu com o Lauro Quadros, foi apenas um deslize. Uma ignorância tolerada. Já com os patrulheiros...

quarta-feira, 12 de março de 2014

A CRÔNICA DO CAJO

Coisas que devem acontecer com todo mundo...

Estou baixando essa lei, obrigatoriedade no seu cumprimento... como toda lei (sic). 

Hoje no final da tarde, em Lajeado, fui lanchar, e na frente do bar dois meninos queriam fazer voar seu avião de papel. Por si só é muito bom ver uma brincadeira dessas sem tecnologias prontas e os guris de seus sete ou oito anos se divertindo na rua com algo criado por eles. Na rua! Enfim, divertiam-se, mas o avião teimava em não voar como eles queriam.

Como os voos eram erráticos, esperei o momento em que ele viria em minha direção. Sortudo como eu, foi só pensar... Bem, peguei o aviãozinho que tinha caído ao meu lado e chamei os piás. Então fiz uns ajustes, mostrando a eles como fazê-los e o que iria acontecer. E o aviãozinho de papel voou e até que voou legal. Depois de um outro voo, um dos meninos se virou pra mim e disse que dependendo do ajuste o avião subiria ou desceria (eu tinha feito dois aerofólios atrás), já tentando entender outros modos possíveis de voar. A diversão ficou mais animada e eles mesmos agora faziam os ajustes. Não precisavam mais de mim. Terminei meu lanche e fui pra aula da noite com a alma mais leve.


Eu tenho duas filhas, já adultas hoje, e a Valentina, que faz dois anos em abril. Brinco hoje com a Valen como brincava com minhas filhas. Vi hoje no sorriso dos guris o sorriso que vejo na minha neta quando se vivencia uma coisa legal. É um sorriso de alegria. De satisfação por algo. Do resultado da diversão realizada. E também me lembrei do post que meu velho amigo Roque Reckziegel colocou na rede, mostrando seu artesanato de férias. E mandei uma mensagem lembrando dos tempos em que a gente mexia com artesanato, junto com outro velho amigo, o Luís Augusto Fischer (bem, o Roque era o verdadeiro artesão... coisa de família, eu e o Mano tentávamos acompanhar, se bem que ele até que tinha algum talento, enquanto eu, o máximo de rebeldia na minha vida artesã tinha sido confeccionar uma pulseira em latão onde estava escrito "shit", que minha amiga Marta Arretche tinha pedido, um ato de rebeldia naqueles inícios dos anos 70, e como comungávamos de um mesmo ideal...). 

Quando criamos o (Clã)Destino, tínhamos a hora da sessão risadinha, em que se ria de qualquer bobagem. Era lei. E era sobre isso que comecei a escrever. O sorriso dos guris, o das minhas filhas e o da hora da sessão risadinha, os nossos sorrisos de alegria e o de todas as pessoas devem ser lei. A lei do direito à alegria. Deve ser lei fazer acontecer coisas boas com todo mundo, como as coisas boas que tive hoje, de ver a brincadeira, participar dela, lembrar das minhas filhas, da minha neta, da época das rebeldias juvenis, do mudar o mundo. Leis para a felicidade. Temos que ser felizes. Mas hoje estamos cada vez mais embrutecidos com o que vemos acontecer e... parou, não quero falar sobre isso. Hoje eu tive um dia feliz!

Cajo