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domingo, 28 de maio de 2017

LEITURA DE DOMINGO

Fobia de fumante
                Paulo Germano
Perderei todos os meus leitores neste exato instante, não será fácil, mas paciência: eu fumo. Pronto.

Agora, além dos riscos de câncer, enfisema, tuberculose, otite, infarto, trombose, diabetes e dente amarelo, ainda preciso conviver com o desprezo do mundo. Primeiro, porque sou burro — estou destruindo a minha própria vida. Segundo, porque sou uma praga social — estou destruindo a vida dos outros.

Como é que a RBS dá espaço para um degenerado, um mau exemplo, um chinelão como esse?

De fato, além dos riscos de câncer, enfisema, tuberculose, otite, infarto, trombose, diabetes e dente amarelo, corro o risco de ser demitido na segunda-feira — isso se eu tiver sorte. Não duvido que um bando de eugenistas me atire em um campo de concentração com outros fumantes sem-vergonha.

Mas justiça seja feita: alguns, talvez, não me odiarão tanto. Vão me chamar de estúpido com aquele jeitinho mais solidário:

— Um moço tão jovem e inteligente, como pode blá-blá-blá.

— Me preocupo com sua saúde, então faça uma força e blá-blá-blá.

Não adiantará eu dizer o óbvio, e não há vitimização nesse óbvio: eu sou doente. O vício em nicotina, a dependência psíquica, essa é uma doença difícil de curar — ao menos tem sido difícil para mim — e, se eu pudesse voltar 20 anos, jamais teria botado o primeiro cigarro na boca, mas botei, até gostei, ainda gosto, mas fumo no meu canto, longe dos outros, saio de perto, me constranjo, e nada disso impede os não fumantes, esses seres superiores que pisoteiam os inferiores, de me apontarem o dedo com sermões exaustivos, invasivos e, acima de tudo, inúteis.

É evidente que errei quando comecei a fumar. Quanto a isso, não há discussão. O que me choca é justamente essa ausência de sensibilidade com o erro, com o pecado — porque, se não há pecado, não há misericórdia, não há piedade, não há compaixão. E Deus me livre de uma sociedade sem compaixão.

A impressão é de que a moral de hoje, com essa gana de corrigir o comportamento alheio, como se ninguém pudesse esbarrar em limitações mentais ou emocionais, bebe muito na inspiração fascista. Verdade que agora é moda falar em fascismo, usa-se "fascista" para atacar qualquer adversário político — assim como usa-se "surreal" para qualquer patetice inusitada —, mas o fascismo é, no fundo, uma filosofia civil, e não um tipo específico de regime ou governo.

O fascismo se manifesta como um agente moral, obstinado em gerar cidadãos melhores por meio da repressão. E o fascista não se considera autoritário, ele se considera um redentor da espécie humana. Ele sempre quer o bem de todos, inclusive o bem de quem ele persegue. Outro argumento fascista é o da praga social:

— Quer se matar sozinho, se mate. Mas não me obrigue a conviver com sua fumaça.

Eu compreendo. É tolerável conviver com a fumaça de indústrias, caminhões, fábricas e chaminés, mas a fumaça de um fumante, não — porque o fumante é um burro que destrói a própria vida e a vida dos outros.

Obrigado aos que me acompanharam até aqui. Sei que hoje perdi todos os meus leitores.

domingo, 4 de setembro de 2016

LEITURA DE DOMINGO

Aguentem o Fora Temer

           Paulo Germano
Não se pode atacar o direito de alguém se expressar porque, na opinião de algumas pessoas - inclusive na minha - a conduta é inadequada

Tenho lido que a Olimpíada – histórico palco de integração entre povos, raças e até nações inimigas – não é ambiente para manifestação política. Na verdade, sempre se pregou isso, o que, aliás, é bem razoável. Concordo que os brasileiros erram quando colocam os problemas internos do país à frente desse espírito global de respeito às diferenças. Mas conscientizá-los na base da censura é um erro ainda maior.

Em decisão liminar na segunda-feira, o juiz federal João Augusto Araújo afirmou que proibir as manifestações pacíficas "afronta o núcleo inviolável do direito fundamental da liberdade de expressão". Ficou liberada, portanto, a exibição de cartazes e camisetas com mensagens políticas, antes reprimida pela organização da Olimpíada. Está certo. Não se pode atacar o cerne de um direito porque, na opinião de algumas pessoas – inclusive na minha –, uma conduta pode ser deselegante ou inadequada.

Inadequado não é ilegal. E nenhuma imposição do Comitê Olímpico Internacional pode atropelar a Constituição, que assegura a livre manifestação do pensamento.

Claro, se na hora do saque, em um jogo de tênis, o tenista atira a bola para cima e, no momento da raquetada, alguém grita "Fora Temer!" e desconcentra o coitado, é diferente. Qualquer comportamento que perturbe o espetáculo também perturba, por consequência, o direito dos outros. O bobalhão deve ser repreendido e, se persistir, retirado.

Mas que perturbação pode haver quando alguém ergue um cartazinho contra o presidente? Ou quando um grupo de pessoas veste camisetas que, lado a lado, formam a frase "Fora Temer"? Pode-se dizer, no máximo, que estão ferindo o espírito olímpico – porque, em nome da convivência pacífica entre todos, as divergências deveriam ficar do lado de fora. Tudo bem. Mas é simplista e autoritário ensinar uma população com um chicote apontado para ela. No lugar da censura, a melhor solução seria aquela mais óbvia, aquela que requer empenho e investimento: educação.

É a educação que nos faz entender as regras tácitas dos ambientes que a gente frequenta. Quem vai a concertos, por exemplo, sabe que a hora do aplauso é quando o maestro vira-se para a plateia. Mas basta ir ao cinema, onde ninguém mais cala a boca, para perceber o quanto esses códigos de etiqueta estão esfacelados.

Não à toa, a imprensa internacional vem se queixando. "No boxe, no judô, na esgrima ou até no tênis, os torcedores brasileiros se comportam como se estivessem em um Flamengo x Fluminense, jogo em que as paixões, cusparadas e eventualmente até socos fazem parte", diz um texto da agência Reuters.

– Nós também somos seres humanos – reclamou a tcheca Marketa Slukova, vaiada o tempo todo na estreia das brasileiras Ágatha e Bárbara no vôlei de praia. – Eu jogo há 10 anos e nunca vivi isso. Não deve ser nada pessoal contra nós, eles só não sabem o limite entre o que é apropriado e o que não é.

Por outro lado, a mesma imprensa internacional se diverte com a nossa empolgação. Foi divertido quando a torcida cantou "mina, seus cabelo é da hora" para homenagear o equatoriano Carlos Mina, que vencera uma luta de boxe. Também dei risada com os gritos de "ôôôôôô, zika!" sempre que a goleira da seleção americana de futebol, Hope Solo, tocava na bola – ela tinha feito gracinha no Instagram ao publicar uma foto com roupas de proteção e um inseticida contra o Aedes aegypti.

Quer dizer: não somos alemães nem austríacos, somos galhofeiros e criativos até quando nos censuram. (Achei genial uma torcedora empunhando um cartaz que dizia "Fora você sabe quem"). Só que, de fato, nos falta educação. E não vai ser retrocedendo no que já conquistamos – a liberdade de expressão é uma conquista recente – que vamos avançar em qualquer coisa.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/paulo-germano/noticia/2016/08/aguentem-o-fora-temer-7237259.html#miolo

domingo, 10 de julho de 2016

LEITURA DE DOMINGO

Ou você é de esquerda, e aceita inclusive as arbitrariedades da esquerda, ou você é de direita, e aceita inclusive as arbitrariedades da direita

               Paulo Germano
Jamais, em hipótese alguma, ouse pensar por conta própria. Se você for de esquerda, por exemplo, nunca desconfie dos dogmas da esquerda, e, se por acaso for de direita, nem pense em contestar o que prega a direita. Ou você é de esquerda, e aceita inclusive as arbitrariedades da esquerda, ou você é de direita, e aceita inclusive as arbitrariedades da direita. Conforme-se, ué. A vida é assim.

Se bem que vou reformular a primeira frase do texto: não ouse pensar. Ponto. Porque, agora que me dei conta, pensar por conta própria é a mesma coisa que só pensar. E pensar segundo padrões já estabelecidos – seja por convicções ideológicas, políticas, religiosas ou culturais – não é pensar, é reproduzir pensamentos prontos. Portanto, não pense, só reproduza o que alguém já pensou. Ou a coisa vai ficar preta para o seu lado.

O caso de Stalin é um bom exemplo. Quando ele discursava, funcionários do Estado levavam até a plateia dezenas de baldes com água. É que as pessoas ficavam com as mãos ardendo de tanto aplaudir, então precisavam molhá-las um pouquinho para continuar batendo palmas. E ai de quem parasse de bater palmas. Quem parasse primeiro era capturado pela polícia secreta, porque certamente alguma coisa o sem-vergonha estava tramando.

Continua tudo igual. Você ainda precisa bater palmas para um Stalin qualquer, e, caso decida parar e pensar, será um traidor que merece severas sanções. Passará a ser visto como um débil mental ou um desonesto, será insultado porque enfrentou a rotina das ideias, então perderá duas das coisas de que o ser humano mais necessita: aprovação e segurança. Você estará perdido.

Portanto, não pense, aprenda que você é uma coisa ou outra, esquerda ou direita, crente ou ateu, ciclista ou motorista, vegano ou carnívoro, colono ou índio, trabalhador ou empresário, oprimido ou opressor. Se você pensar por conta própria, se questionar um pontinho da cartilha que é obrigado a seguir, não pense que lhe responderão assim:

– Veja, amigo, creio que sua visão carece de fundamento lógico, porque esta sua percepção aqui, na verdade, não faz sentido se considerarmos os argumentos tal, tal e tal.

Todos lhe responderão assim:

– Petralha! Golpista! Esquerdopata! Coxinha! Vagabundo! Burro! Lixo! Narigudo! Orelhudo! Bundudo!

Ninguém vai atacar seus argumentos; todos vão atacar a sua pessoa. Porque traidores devem ser destruídos, execrados e humilhados. Por isso, jamais pense, jamais conteste, jamais seja independente. Apenas seja feliz.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/paulo-germano/noticia/2016/07/como-ser-um-traidor-6453086.html