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terça-feira, 14 de maio de 2013

BIOGRAFIA


Publicação revela lado humano de Chet Baker
"Funny Valentine", que chega às livrarias 25 anos após sua morte, fala sobre a agressão que mudou sua carreira
RONALDO EVANGELISTACOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Chet Baker cantava Edu Lobo e Antonio Carlos Jobim. Ao piano, João Donato. Mil novecentos e sessenta e seis, Califórnia. Durante algumas semanas, The João Donato Trio featuring Chet Baker se apresentou no clube Trident, na pequena Sausalito, Baía de São Francisco.

Até o dia em que Chet Baker apareceu, atrasado como sempre, mas dessa vez com um lenço sobre a boca ensanguentada. Havia sido espancado, segundo ele por "cinco jovens negros, sem motivo aparente".
Não tocou mais naquela noite nem nas próximas, abortou-se o plano de um disco João Donato/Chet Baker, e a carreira do trompetista demorou para se recuperar. 

Como consequência da agressão, acabou removendo todos seus dentes superiores e, quando conseguiu voltar a tocar, já era outro.

"Fiquei chateado, claro --ver aquilo acontecer com uma pessoa bonita, com quem eu trabalhava todos os dias. Ele não podia tocar da mesma maneira depois disso. Então eu o mandei para casa e disse, se cuide", lembra Donato, na biografia "Funny Valentine", do britânico Matthew Ruddick, que conta a história de Chet Baker de um ponto de vista mais humano.

A história da agressão que mudou sua carreira, bem quando mais tinha contato com a música brasileira, é um dos vários pontos da vida de Chet Baker abordados no longo livro. São mais de 800 páginas na versão inglesa da biografia, que também inclui discografia completa e comentada do trompetista.

"Ele exerce um fascínio que se estende para além do jazz", comentou Ruddick, em entrevista à Folha.

"E isso continua a existir, esse fascínio com seu tom frágil de tocar, seu canto delicado. E, claro, com o visual dele --no começo, quando ele era bonito como uma estrela de cinema, e também nos anos mais tarde, quando seu estilo de vida cobrava seu preço."

Com seu toque cristalino, voz romântica e sorriso de Mona Lisa, e sua história tão ligada a drogas, mulheres, carros, prisões, Chet Baker é grande figura cult, que já inspirou tributos, documentários, homenagens, relançamentos de suas centenas de discos, fama em vida e póstuma.

DROGAS
Vinte e cinco anos depois de sua misteriosa morte, ao cair de uma janela de quarto de hotel em Amsterdã, na madrugada de 13 de maio de 1988 --outra história investigada na biografia--, continua um dos nomes que mais atraem interesse no jazz.

Tão famoso por sua longa e intensa relação com a heroína como com a música, o Chet Baker que se revela em "Funny Valentine" é um personagem algo mais humano, com um perfil mais completo e musical que o de sua outra biografia famosa de alguns anos atrás, "No Fundo de um Sonho" (lançada no Brasil pela Companhia das Letras).

"Foi relativamente fácil falar sobre as drogas", disse Ruddick. "Porque James Gavin, autor de 'No Fundo de um Sonho', explorou a questão com profundidade --a ponto de vários músicos com quem falei terem sentido que o livro não focava suficientemente na música. Então, me propus a criar um retrato mais equilibrado de Chet."

Baseado em Hong Kong há oito anos, o autor conta que falou com um total de mais de 150 músicos e amigos do trompetista.

"Comecei a trabalhar no livro quando morava em Londres, estava em contato com o filho de Chet, Paul Baker", conta Ruddick. "Mas infelizmente sua mãe, a terceira mulher de Chet, Carol Baker, decidiu que meu livro poderia atrapalhar seus planos de vender os direitos de imagem de Chet para um produtor de Hollywood fazer um filme", diz.

"Nos anos seguintes, a internet explodiu e tornou minha pesquisa muito mais fácil. Fiz muitas entrevistas por telefone, mas também encontrei pessoalmente com um número de pessoas chave em viagens à Europa e aos Estados Unidos", afirma.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

BIOGRAFIA


Enfim, a biografia de Frank Sinatra

Autor lembra que cantor até fez parar de chover em show no Maracanã e anuncia sequência das memórias


Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo

Três anos após seu lançamento nos Estados Unidos, chega às livrarias este domingo a biografia Frank, A Voz, de James Kaplan (Companhia das Letras, R$ 69), uma viagem de mais de 700 páginas pela primeira fase da vida do maior crooner que já passou pelo planeta. O livro vai do nascimento do artista, em Hoboken, New Jersey, até 1954, quando Sinatra ganha o Oscar por A Um Passo da Eternidade. Kaplan falou ao Estado ontem, por telefone, sobre a biografia e sua sequência.
Já há um título para o segundo livro das memórias de Sinatra?
JAMES KAPLAN - Sim. Ainda não está pronto, mas vai se chamar Sinatra - The Charmain of the Board. É um apelido que lhe foi dado por um radialista norte-americano chamado William B. Williams, que foi um importante broadcaster nos Estados Unidos nos anos 1950 e 1960 e que era grande apreciador da arte de Sinatra. Ele o apelidou assim por causa de sua posição no mundo da música e também por causa da ambição de Sinatra de controlar cada etapa de sua carreira profissional.
Nesse primeiro livro, Frank - A Voz, seu editor disse que o resultado fazia o leitor sentir o que era realmente ser Frank Sinatra. Foi essa sua intenção ou foi natural?
JAMES KAPLAN - Bem, eu queria... Sabe, essa foi a minha primeira biografia. Sou um romancista, tinha ajudado a fazer dois livros sobre celebridades, John McEnroe e Jerry Lewis. Esta foi minha primeira biografia, um formidável desafio. Eu não queria escrever uma biografia convencional, ou que fosse "seca" ou acadêmica. Queria dar uma narrativa forte, que pudesse carregar as forças de uma boa ficção, mas que fosse completamente verdadeira, até nos detalhes.
Há até alguns detalhes que são controversos, como por exemplo o tamanho do pênis de Sinatra. Como o sr. decide colocar um detalhe assim numa biografia?
JAMES KAPLAN - Eu não queria explorar nenhum lado sensacional de Sinatra. Há muitas biografias em inglês da vida dele e elas... A maior parte delas antes da minha era muito sensacionalista, muito escorada em escândalos: as conexões com a Máfia, crime organizado, sexo. A razão pela qual eu escrevi esse livro em primeiro lugar foi... Você conhece Jerry Lewis? Eu fiz um livro sobre Jerry, e ele foi um amigo muito próximo de Sinatra. E ele e eu somos grandes amigos agora e conversamos durante muitas horas sobre essa amizade com Sinatra. Eu acabei sentindo como se conhecesse Sinatra, ele acabou se tornando muito humano para mim. Durante o processo de pesquisa, eu saí para jantar com diversos músicos que tinham trabalhando com o cantor, e eu esperava deles fofocas e histórias sobre mulheres e a Máfia, mas em vez disso eles todos me falaram de quão genial ele era, o gênio musical que ele foi. Eu me dei conta que, se desse a dimensão desse gênio, seria um livro interessante. Há coisas que ajudam a dar a dimensão do homem que homens e mulheres admiravam. Pegue o aspecto físico dele: era baixinho, tinha cicatrizes no rosto, tornou-se careca muito jovem. Acho que ele nunca foi satisfeito com seu físico. E é preciso compreender o ambiente em que Sinatra nasceu e cresceu, nos Estados Unidos dos anos 1920 e 1930. Os gângsteres eram homens de poder. E Sinatra, não de forma elogiável, os admirava. Ele foi assim a vida toda. No novo volume, eu narro como ele se relacionava com o gângster Sam Giancana, que esteve profundamente envolvido na eleição de John Kennedy.
Em janeiro de 1980, Sinatra veio cantar no Maracanã. É um recorde absoluto de público até hoje, 175 mil pessoas.
JAMES KAPLAN - Sim. E a chuva parou para ele cantar! Foi um milagre!
Foi um momento-chave para o show biz do Brasil, porque até aquele momento não havia know-how para um show desse porte.
JAMES KAPLAN - Eu não sabia disso, mas faz sentido. Foi um momento muito importante tanto para o Brasil quanto para Sinatra. Foi a maior audiência para a qual ele cantou na carreira, ele amava o Brasil e ele e Jobim se adoravam, eram muito reverentes um com o outro artisticamente. Ele demonstrou grande sentimento por cantar no Brasil.


Gay Talese perpetrou uma frase clássica do new journalism dizendo que "Sinatra gripado é como Picasso sem tinta, Ferrari sem gasolina - só que pior".
JAMES KAPLAN - (Risos) Gay Talese é um grande amigo meu. Conversei bastante com ele para fazer meu livro e acho que ele escreveu o mais importante artigo sobre Sinatra (na revista Esquire). Talese admirava Sinatra e sofreu com ele, que tinha pouca paciência e era volátil. Não deu a Talese o tempo que este queria.