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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

DO CANCIONEIRO POLITICAMENTE INCORRETO


Dom de Iludir
(Caetano Veloso)

Não me venha falar na malícia
De toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia
De ser o que é

Não me olhe
Como se a polícia andasse atrás de mim
Cale a boca e não cale na boca
Notícia ruim

Você sabe explicar
Você sabe entender tudo bem
Você está, você é
Você faz, você quer, você tem

Você diz a verdade
A verdade é o seu dom de iludir
Como pode querer
Que a mulher vá viver sem mentir

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

DO CANCIONEIRO POLITICAMENTE INCORRETO


O Neguinho e a Senhorita
(Noel Rosa e Abelardo da Silva)

O Neguinho gostou da filha da Madame 
Que nós tratamos de sinhá 
Senhorita também gostou do Neguinho 
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar 
A Madame tem preconceito de cor 
Não pôde evitar esse amor 
Senhorita foi morar lá na Colina 
Com o Neguinho que é compósito 
Senhorita foi morar lá na Colina 
Com o Neguinho que é compositor 

Senhorita ficou com nome na história 
E agora é a rainha da escola 
Gostou do samba e hoje vive muito bem 
Ela devia nascer pobre também 
Gostou do samba e hoje vive muito bem 
Ela devia nascer pobre também

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

DO CANCIONEIRO POLITICAMENTE INCORRETO


Gago Apaixonado
(Noel Rosa)

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

DO CANCIONEIRO POLITICAMENTE INCORRETO


Mulher Indigesta
Noel Rosa

Mas que mulher indigesta! (Indigesta!)
Merece um tijolo na testa
Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half pra marcar
Pois não deixa a linha chutar
E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite
Essa mulher é ladina
Toma dinheiro, é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

MÚSICA NA SEXTA

No início dos anos 1930, Noel Rosa ouviu um samba chamado Lenço no Pescoço, gravado por Silvio Caldas. A canção era uma lavada exaltação à malandragem, com versos como Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho de ser tão vadio.

Apesar de várias de suas composições se mostrarem simpáticas aos malandros, resolveu responder ao compositor, o jovem e então desconhecido Wilson Batista. Mas musicalmente. Nascia Rapaz Folgado, em que clama ao autor que compre sapato e gravata e deixe de lado a vida boa. O que poderia parecer apenas um "chega pra lá" a um iniciante tinha, na verdade, outra motivação: o aspirante havia se envolvido com Juraci Correia de Morais, ou Ceci, o maior e mais conturbado amor da vida de Noel.

Wilson, que de besta não tinha nada, viu na polêmica um atalho para o sucesso. Compôs então Mocinho da Vila: Injusto é seu comentário / Fala de malandro quem é otário.

E Noel decidiu dar um basta. Escreveu a definitiva Feitiço da Vila: Lá, em Vila Isabel / Quem é bacharel / Não tem medo de bamba / São Paulo dá café / Minas dá leite / E a Vila Isabel dá samba. Acreditava que assim calaria de vez o adversário. Estava enganado.

O incansável Wilson compôs Conversa Fiada, obrigando Noel a replicar com a desmoralizante Palpite Infeliz: Pra que ligar a quem não sabe / Aonde tem o seu nariz? / Quem é você que não sabe o que diz?

E Wilson perdeu as estribeiras. Emendou a nada sutil Frankenstein da Vila, em alusão ao defeito que Noel tinha no queixo: Entre os feios és o primeiro da fila / Todos reconhecem lá na Vila / Essa indireta é contigo.



Feitiço da Vila
Noel Rosa
  Quem nasce lá na Vila
 Nem sequer vacila
 Ao abraçar o samba
 Que faz dançar os galhos,
 Do arvoredo e faz a lua,
 Nascer mais cedo.
  Lá, em Vila Isabel,
 Quem é bacharel
 Não tem medo de bamba.
 São Paulo dá café,
 Minas dá leite,
 E a Vila Isabel dá samba.
  A vila tem um feitiço sem farofa
 Sem vela e sem vintém
 Que nos faz bem
 Tendo nome de princesa
 Transformou o samba
 Num feitiço descente
 Que prende a gente
 O sol da Vila é triste
 Samba não assiste
 Porque a gente implora:
 "Sol, pelo amor de Deus,
 não vem agora
 que as morenas
 vão logo embora
Eu sei tudo o que faço
 sei por onde passo
 paixao nao me aniquila
 Mas, tenho que dizer,
 modéstia à parte,
 meus senhores,
 Eu sou da Vila!




 Palpite Infeliz
 
 Noel Rosa
 Quem é você que não sabe o que diz?
 Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!
 Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
 Oswaldo Cruz e Matriz
 Que sempre souberam muito bem
 Que a Vila Não quer abafar ninguém,
 Só quer mostrar que faz samba também
  Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
 Ao som do samba dança até o arvoredo
 Eu já chamei você pra ver
 Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
 A Vila é uma cidade independente
 Que tira samba mas não quer tirar patente
 Pra que ligar a quem não sabe
 Aonde tem o seu nariz?
 Quem é você que não sabe o que diz?

sábado, 11 de maio de 2013

ÚLTIMO DESEJO

NANA E O ÚLTIMO DESEJO

Luiz Carlos Sá

Estou no Teatro Municipal do Rio, concorrendo ao 22o. Premio da Música Brasileira 2011, indicados que fomos (Sá, Rodrix & Guarabyra) na categoria de melhor grupo. Por sinal, já perdemos essa: Os Cariocas levaram o troféu, o que significa para nós uma derrota honrosa. Mas o espetáculo está valendo a viagem: o homenageado é Noel Rosa e começamos com Paulinho da Viola e sua filha Beatriz Faria, ele enfeitiçando a Vila com aquela indizível elegância de sempre, e depois, com a filha à altura do pai (o que é muito além do que poderia sonhar uma novata, mesmo contando com a genética), suingando o “Palpite Infeliz”. E logo em seguida, vejam só, “Feitio de Oração” com Dori Caymmi! É muito? Não. Porque agora Dori chamou Nana. E ela começou a cantar “Último Desejo”.

“Nosso amor, que eu não esqueço

E que teve seu começo

Numa festa de São João...”

Todos sabemos que Nana Caymmi é uma cantora extraordinária, timbre, técnica e emoção unidos numa combinação rara. Mas tenho a impressão de que hoje ela resolveu superar-se. A pequena - mas afiadíssima! - orquestra e o arranjo impecável ajudam Nana a navegar pelos versos únicos de Noel. Lá vai ela:

“...morre hoje sem foguete

Sem retrato e sem bilhete

Sem luar e sem violão...”

Se houvesse uma mosca voando no teatro, ela seria ouvida. O silêncio da platéia, sem um sussurro sequer naquele Municipal lotado, é quase tão deslumbrante quanto a Voz da Cantora.

“Perto de você me calo,

tudo penso, nada falo

Tenho medo de chorar...”

Quem está ficando com medo de chorar sou eu. Nos anos 50, mal passada década e meia da morte de Noel, eu era criança, nascido e crescendo na minha Vila Isabel. Comprava meus brinquedos nas Lojas Trindade, meus remédios chegavam da Farmácia Montanha, a comida vinha do então Armazém Sendas, minha escola era a República Argentina e eu brincava nas matinês carnavalescas da Associação Atlética Vila Isabel, da qual, aliás, meu pai era presidente de vez em quando. Sylvio Sá conseguia juntar seu trabalho duro e burocrático num cartório do Centro às rodas boêmias da Vila. Volta e meia chegava do batente já com a turma armada para a seresta noturna:”hoje vai ter, dizia ele. E à noite, na varanda da Major Barros 32 apartamento 201, os violões e cavaquinhos atacavam com tudo, varando a noite. Minha família toda cantava: pai, mãe, irmã mais velha, cunhado, primas... até eu tinha minha chance de subir na cadeirinha e cantar... adivinha qual era minha preferida? Isso mesmo: “Último Desejo”.

“Nunca mais quero teu beijo

Mas meu último desejo

Você não pode negar”

A essa altura aquela seletíssima platéia de músicos, compositores, maestros, arranjadores, instrumentistas, sertanejos, sambistas, roqueiros, enfim, todos os eiros, istas e ores que estavam ali a bordo de suas partituras mais ou menos sofisticadas, dos mais populares aos mais – digamos assim – sofisticados, estavam de bocas e corações abertos, mesmerizados pela espantosamente emocionante interpretação de Nana. Não ousávamos olhar uns para os outros, pois descobriríamos ali mesmo nossos segredos mais escondidos, desencavados por aquela tempestade de sentimentos que se projetava do palco. A essa altura Nana não era mais Nana, era uma espécie de médium que “recebia” Noel...

“Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga

Se você me quer ou não

Diga sempre que me adora, que você lamenta e chora

A nossa separação”

Quem, se não Noel, teria a sensibilidade de pedir à ex-amada este último desejo? Lamentar o bem vivido aos amigos, para que mais amigos fossem e o mal vivido aos inimigos, para que estes mais se afastassem...

“E às pessoas que detesto

Diga sempre que eu não presto

Que meu lar é um botequim”

Nana está terminando. Seu gestual é simples, despojado, comandado apenas pelo sentimento, sem nenhuma ambição de forçar a barra, sem nenhum dramatismo extrapolado. Ela sabe mostrar a Lágrima Interior, aquela que aparece sem chorar. Sua voz grave e única ressoa por um Municipal em êxtase:

“Que eu arruinei sua vida

E não mereço a comida

Que você pagou pra mim”

O final é simples, sem nenhum rebuscamento. Nana se afasta do microfone. Depois de um milissegundo de “o que foi isso?!” o Teatro Municipal – platéia, balcões e torrinha – simplesmente explode, aos urros e aplausos. Levanto-me da poltrona, ejetado por aquela força emocional que só nos atinge em ocasiões muito, muito, especiais e urro junto com o resto do público. Todo mundo está de pé, todos estão de acordo comigo: nunca existiu um “Último Desejo” igual aquele que Nana nos mostrou.

Só não chorei ali por idiota que sou. Mas prometo aqui, de público, que no meu próximo encontro com Nana Caymmi – tomara que seja logo – vou abraçá-la com todo o meu carinho de amigo e chorar mansamente em seu ombro. Ela certamente vai me perguntar por que e eu vou dizer a ela que choro por aquelas noites de música em Vila Isabel, pelo sorriso feliz de meu ido pai, pela varanda tranquila da Major Barros, pelas vozes que não posso mais ouvir, pela alegria de poder tocar, cantar e compor e pelo jovem de vinte e seis anos que nos proporcionou – através dela – aqueles três minutos e pouco essenciais para qualquer ser que considere a música uma parte importante de sua vida.

www.luizcarlossa.com.br - 18/6/2011