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domingo, 5 de maio de 2013

PAULO MOURA


Documentário de Eduardo Escorel resgata história do músico Paulo Moura

SÃO PAULO (Reuters)
"Paulo Moura - Alma Brasileira", de Eduardo Escorel, é um documentário atravessado por um legítimo desejo de resgate. No caso, da vida e, sobretudo, da obra do clarinetista, saxofonista, compositor e arranjador paulista Paulo Moura (1932- 2010). É também um trabalho que sobrevive lindamente ao desafio de ter que encarar a morte de seu protagonista logo ao início. O filme estréia em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e Curitiba.

O projeto existia desde 2008, mas as habituais dificuldades de financiamento adiaram as filmagens até 2010, quando o músico morreu de um linfoma. Montador experiente e diretor versado em documentários políticos, como "O Tempo e o Lugar" (2008), Escorel até pensou em desistir. Felizmente, encontrou caminhos criativos para perseverar, resultando numa obra que serve de justa homenagem a um artista extremamente preparado, versátil, que não distinguia limites entre o erudito e o popular e, não raro modesto, atravessou bem mais fronteiras do que boa parte do público supõe.

Algumas imagens foram inacessíveis - como as de um último sarau promovido pelo músico, filmadas por Escorel, no hospital, cuja utilização a viúva de Moura, Halina Grynberg, não autorizou. O documentarista, no entanto, compensa a ausência com inúmeras outras gravações, algumas inéditas, obtidas em diversas fontes, que permitem assinalar com bastante propriedade a trajetória do músico.

Embora não se pretenda uma biografia em sentido amplo, compromissada com uma cronologia estrita, "Paulo Moura - Alma Brasileira" se vale sobretudo da música composta e executada pelo artista para delinear sua estatura, que lhe valeu um Grammy em 2000 e uma nova indicação, em 2008.
Algumas dessas imagens mostram a impressionante internacionalização de Moura, visto em festivais tão diferentes como Lagos, Berlim, Montreux e Telaviv, e também em parcerias ao vivo, com colegas como o violonista Yamandu Costa.

Não falta a antológica participação do músico na célebre noite de lançamento da Bossa Nova no Carnegie Hall, em novembro de 1962, a convite de Sérgio Mendes, ao lado de Tom Jobim, João Gilberto e tantos outros. Uma ocasião em que a presença de Moura é, não raro, esquecida.
Um excelente depoimento de voz do próprio personagem permite situar melhor sua consciência política e social, como quando comenta a surpresa do golpe de 1964 e também declara sua ojeriza a críticos que policiavam a brasilidade, citando nominalmente o ortodoxo José Ramos Tinhorão. Também é bem-vinda a sua lembrança de, quando bem jovem, ter tocado em dois bailes ao lado de ninguém menos do que o mestre Pixinguinha.

Tal como ocorreu, ainda que de maneira mais exclusiva, no recente documentário "A Música Segundo Tom Jobim", de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, essa opção preferencial pela música em detrimento dos depoimentos mostra-se acertada para o recado que o documentário quer passar. Ao final da projeção, não há como deixar de constatar o quanto Paulo Moura foi um artista muito maior do que a maioria de nós tinha notado.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

CINEMA

"Abismo Prateado" transforma música de Chico Buarque em drama sobre separação

Inspirado em "Olhos nos Olhos", filme estrelado por Alessandra Negrini acompanha jornada de um dia na vida de mulher abandonada pelo marido

Luísa Pécora, iG São Paulo

Uma canção de Chico Buarque lançada em 1976 serviu de ponto de partida para o cineasta cearense Karim Aïnouz criar seu quarto longa de ficção, "O Abismo Prateado", que estreia nesta sexta-feira (26). Na imaginação do diretor, "Olhos nos Olhos" deixou de ser música e se tornou a carta de amor que a protagonista, Violeta, escreve para o marido que a abandonou:

"Quando você me deixou, meu bem, me disse para ser feliz e passar bem / Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci, mas depois, como era de costume, obedeci / Quando você me quiser rever já vai me encontrar refeita, pode crer / Olhos nos olhos, quero ver o que você faz / Ao sentir que sem você eu passo bem demais."
                                          Alessandra Negrini em "O Abismo Prateado". Foto: Divulgação

Tendo as primeiras estrofes da canção de Chico Buarque como base, "O Abismo Prateado" acompanha a trajetória de Violeta durante apenas um dia, quando descobre que seu casamento acabou.

Pela primeira vez, o diretor de "Madame Satã", "O Céu de Suely" e "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" trabalha com uma atriz tão famosa quanto Alessandra Negrini, e o filme faz um claro e bem-sucedido esforço de despi-la dos traços de celebridade e tranformá-la em uma mulher comum.
                                            Karim Aïnouz, Alessandra Negrini e Chico Buarque

Aos 40 anos e casada desde os 22, Violeta é dentista, usa roupas simples e vai ao trabalho de bicicleta. Depois de uma intensa relação sexual com o marido, toma banho, seca os cabelos e toma café em um apartamento recém-comprado na zona sul do Rio de Janeiro.

Acompanha o filho de 14 anos em parte do caminho até a escola, segue para o trabalho, recebe seus pacientes e, durante um intervalo, vai à academia.

Desesperada e sem conseguir entrar em contato com Djalma, Violeta decide procurá-lo em Porto Alegre. Após perder o último voo e sem encontrar forças para voltar para casa, ela pega um táxi para Copacabana para uma noite de sofrimento, reflexão e autodescobrimento que incluirá novas amizades, uma frenética sessão de dança e, é claro, a canção de Chico Buarque.

"O Abismo Prateado" carrega algumas das marcas de Aïnouz, como protagonistas solitários, papéis femininos fortes e uma notável sensibilidade ao tratar de seus dramas pessoais.

Apesar dos poucos diálogos e dos longos silêncios, o som é uma das características mais marcantes do longa, no qual o mar, uma obra, o trânsito e o rádio do táxi se combinam para sugerir o estado emocional de Violeta, afastando a necessidade de recorrer a explicações excessivas ou cenas óbvias de choradeira e desespero.

Seguindo o mesmo tom do diretor, Negrini acerta ao fazer um trabalho sutil e contido, usando a respiração como o fio condutor da personagem - pesada e ofegante nos momentos de desespero, silenciosa e tranquila conforme os versos de "Olhos nos Olhos" ganham sentido.

domingo, 14 de abril de 2013

AMARGO PESADELO


Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972) é um daqueles filmes de suspense que põem uma faca bem afiada na garganta do espectador desde o início, deixando-o imóvel, tenso, suando frio. O longa conta a história de quatro amigos que se reúnem para descer o rio Cahulawassee desde a nascente até a foz, aproveitando que em breve o rafting na região será inviabilizado pela construção de uma hidrelétrica. Até aí, nada demais, parece ser um filme de aventura estrelado por dois galãs do cinema no auge de suas formas: John Voight (Ed) e Burt Reynolds (Lewis). Só parece. Logo no começo, quando os quatro param em um pequeno vilarejo, o ambiente lúgubre deixa claro que algo desagradável está por vir.

Depois de algum tempo procurando uma alma viva naquele vilarejo, finalmente um senhor taciturno aparece, ressabiado, pensando que o grupo estava envolvido com a construção da hidrelétrica no local – na verdade, eles queriam alguém que levasse seus dois carros até Aintry, na foz do rio, onde os quatro chegariam após o rafting. Quando Lewis pergunta se aquele senhor poderia fazer esse favor, recebe como resposta “vocês são loucos”. A partir daí, fica claro que entre os habitantes da região há um consenso: não é uma boa ideia descer o rio Cahulawassee, embora os quatro amigos não pareçam dar muita ideia para isso, para desespero de quem está assistindo...

Drew (Ronny Cox) tenta quebrar o gelo
através da música
Esse ruído de comunicação só é interrompido quando, no alpendre da casa que funciona também como posto de gasolina, um garoto com um banjo surge e chama a atenção de Drew (Ronny Cox), único dos quatro que carregava um violão. A desconfiança mútua se desfaz a partir do momento em que os dois começam a tocar juntos, um respondendo ao riff do outro. Em meio ao duelo, Bobby (Ned Beatty) observa que o garoto com o banjo aparenta ter deficiências genéticas, ao que um dos moradores do vilarejo responde: “quem está tocando o banjo aqui?”. A cena, eternizada como o “duelo de banjos”, é lembrada pelo Frames para Sempre da semana.

Billy Redden à época do filme (esq) eatualmente
Aliás, essa é uma boa oportunidade para desfazer uma das lendas criadas em torno desta parte do filme: o garoto que toca banjo não é autista. Seu nome é Billy Redden, e ele foi selecionado durante um teste de elenco na Clayton Elementary School, na Geórgia. Os traços de deficiência genética que eram descritos no livro homônimo de James Dickey, que deu origem ao filme, foram simulados com uma maquiagem especial aplicada em Billy. Ele também participou do filme Peixe Grande e sua histórias maravilhosas (Big Fish, 2003), de Tim Burton. E o autor do livro, por sinal, faz uma ponta no filme como um xerife da comunidade.

Lewis após quebrar a perna durante
a funesta aventura
Amargo Pesadelo fez um sucesso inesperado para o orçamento do filme, de U$ 2 milhões; foram três indicações aos Oscar, nas categoria de melhor filme, diretor e edição, além de um faturamento de U$ 46 milhões. O caráter low-profile do filme se evidencia na falta de dublês mesmo para as cenas mais arriscadas – Burt Reynolds chegou a quebrar o cóccix em uma das cenas que escorrega pela cachoeira. 

Sem grandes efeitos ou enredo mirabolante, o filme retrata pessoas normais que envolvem-se em situações insólitas, tendo que tomar medidas drásticas para continuarem vivas, a despeito de suas convicções morais e éticas. Um filme imperdível, especialmente para quem gosta do gênero suspense/thriller. A direção é de John Boorman.

quinta-feira, 14 de março de 2013

O SOM AO REDOR: DIRETOR É DESAFIADO POR EXECUTIVO DA GLOBO FILMES


A briga esquentou quando Cadu Rodrigues, diretor-executivo da Globo Filmes, mandou um desafio a Mendonça.



Divulgação

Cena do longa O Som ao Redor
 
O crítico de cinema e cineasta Kleber Mendonça Filho, de O Som ao Redor, sempre deixou claro que desaprova o sistema de produção adotado pela Globo Filmes.
 A briga esquentou quando Cadu Rodrigues, diretor-executivo da Globo Filmes, mandou um e-mail na lista Cinebrasil com um desafio a Mendonça.
 Ele escreveu: “Peço copiar a quem interessar, desafio o cineasta Kleber Mendonça Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo apoio da Globo Filmes! Se fizer, nada do nosso trabalho, será cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 mil, assume publicamente que, como diretor, ele é, talvez, um bom critico”.
 O cineasta respondeu à provocação de Rodrigues pelo Facebook:
 “Preciso lhe agradecer pelo desafio, mas sua proposta associa a não obtenção de uma meta comercial (200 mil espectadores) como prova irrefutável de que eu não seria um cineasta. Isso não me parece correto, pois o valor de um filme, ou de um artista, não deveria residir única e exclusivamente nos número$. Sobre ser crítico ou cineasta, atuei como ambos e meu discurso permanece o mesmo, e sempre foi colocado publicamente, e não apenas em mesas de bar: o sistema Globo Filmes faz mal à ideia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto”, escreveu.
 Ele não deixou barato e ainda desafiou a companhia. “Devolvo eu um outro desafio: Que a Globo Filmes, com todo o seu alcance e poder de comunicação, com a competência dos que a fazem, invista em pelo menos três projetos por ano que tenham a pretensão de ir além, projetos que não sumam do radar da cultura depois de três ou quatro meses cumprindo a meta de atrair alguns milhões de espectadores que não sabem nem exatamente o porquê de terem ido ver aquilo”.
 As declarações de ambos repercutiram pela internet e a produtora Vania Catani, produtora de O Palhaço (produzido pelo Telecine), elogiou, em seu perfil no Facebook, “a elegância e o equilíbrio” na resposta do cineasta.
O Som ao Redor não tem apoio da Globo e em seus quase 2 meses em cartaz atraiu mais de 80 mil espectadores aos cinemas, resultado que agrada aos produtores e distribuidores do longa. O filme foi escolhido pelo New York Times como um dos melhores do ano

Em 26/02/2013 | Por Daniel Reininger- Cineclick