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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

LEITURA

Bolsonaro para os pobres, Paulo Freire para os ricos

José Ruy Lozano*


A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em colégios influenciados por ele. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX

Pipas de várias cores enfeitam o céu. Alunos observam algumas subirem e outras caírem, enquanto tentam compreender como a direção do vento influencia o movimento, além de verificarem na prática conceitos científicos como aerodinâmica, resistência do ar e força da gravidade. Tudo na base da experiência concreta, envolvendo tentativas e erros.

Voltando à sala de aula, professor e alunos discutem, organizados em círculo, o que se aprendeu com aquela vivência. A diferença hierárquica entre mestre e estudantes se dilui, e o professor mostra-se mais como um mediador ou um facilitador do processo de aprendizagem.

Pano rápido. Vamos nos deslocar para outra realidade.

Alunos uniformizados prestam continência e dirigem-se aos policiais, que também são professores, utilizando os termos “senhor” e “senhora”. Nos corredores da escola, com paredes cinzentas, não se veem bedéis, mas guardas, alguns armados. Todos os meninos usam o mesmo corte de cabelo, todas as meninas têm o cabelo preso.

Na sala de aula, o professor fala e os alunos ouvem. Todos os estudantes sentam-se enfileirados e qualquer contato entre eles durante a explanação gera uma advertência. Contabilizadas, as advertências podem provocar a expulsão do aluno.

As primeiras cenas são parte do cotidiano de um grande colégio de elite, recém-chegado à cidade de São Paulo. As seguintes são exemplares da realidade vivida em colégios estaduais administrados pelas polícias militares de cada estado.

As descrições revelam duas tendências – contraditórias – cada vez mais presentes no panorama escolar brasileiro. As escolas particulares mais caras investem em metodologias ativas, considerando os interesses e as individualidades dos alunos, partindo do pressuposto de que eles, alunos, são os protagonistas da aprendizagem. Já escolas públicas de muitos estados brasileiros estão terceirizando sua administração às polícias militares e apostam na disciplina mais rígida e no ensino mais tradicional.

Grandes empresários e grupos de investimento estrangeiros compram ou erguem escolas com tecnologia moderna e formação de ponta, onde os alunos aprendem a explorar o mundo por uma interação lúdica. Enquanto isso, o deputado Jair Bolsonaro espalha nas redes sociais vídeos propagandeando as virtudes das escolas administradas pela PM, cujo mantra é lei e ordem.

Uma agridoce ironia: o ponto cego dos discursos das escolas de elite é admitir que as metodologias que propõem são em grande medida inspiradas em teorias da educação que tiveram Paulo Freire como um de seus expoentes.

Geralmente, esses colégios mencionam programas de formação de universidades norte-americanas, como Harvard e Stanford. O que não dizem é que obras como Pedagogia da Autonomia, um clássico do pensador pernambucano, estão na bibliografia básica das faculdades de educação inspiradoras de seus projetos pedagógicos.

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em escolas em muito influenciadas por ele, bem como por outros pensadores considerados progressistas no campo da educação, como Jean Piaget ou Maria Montessori.

A ironia continua. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX. Ainda que justamente pensando neles Paulo Freire tenha elaborado suas teses, a eles são negadas sua influência e seu prestígio.

Mas a diferença talvez não seja tão despropositada ou surpreendente como se pode pensar à primeira vista. Afinal, nas escolas públicas estudam os pobres, que serão no futuro funcionários dos alunos ricos.

E o que se espera do trabalhador pobre, a não ser obediência? Aos ricos, proporciona-se liberdade. Dos ricos, esperam-se criatividade, “empreendedorismo”, autonomia. Ao pobre, destinamos o adestramento, a normalização foucaultiana de condutas, a padronização de comportamentos.

Acima de tudo, não se deve incentivar o questionamento, tampouco uma perspectiva crítica dos filhos das classes menos favorecidas. Isso deve ser reservado àqueles capazes de pagar mensalidades astronômicas, que compram um desenvolvimento cognitivo “diferenciado” para seus filhos.

Assim a educação brasileira cumpre seu papel: o de continuar sendo um dos instrumentos mais terríveis de manutenção da desigualdade social.

*José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Conselho Independente de Proteção à Infância (Cipi) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.

domingo, 20 de agosto de 2017

SOBRE CHICO E O POLITICAMENTE CORRETO

Zeladores da nova moral querem queimar livros clássicos

          Ana de Hollanda
Não costumo postar comentários sobre o que se fala de Chico, até porque, além de nunca ter agradado a todos – o que é normalíssimo – ele não precisa de mim para defendê-lo.

Mas o fato é que vejo gente que acredita estar abraçando uma causa progressista ao fazer coro a oportunistas de sempre que usam a popularidade dele para se projetar midiaticamente, através de qualquer polêmica.

Há décadas a Folha de São Paulo – na época rompida explicitamente com Chico – costumava contratar garotos recém-formados para escreverem críticas detonando os trabalhos dele, declarando ser um artista ultrapassado, “datado”, medíocre etc. etc. etc.

Isso repercutia em todos os cantos e o jornalista anônimo, de uma hora para outra, se tornava celebridade entre os “a favor” e “os contra”. Repetia a receita com outros artistas consagrados até que, depois de uns dois anos de polêmicas, já desgastado, era substituído por outro que aceitava a mesmíssima tarefa.

Hoje, esses cinquentões estão soltos por aí, tentam conquistar alguma credibilidade, chegam a se declarar de esquerda e fazem o possível para que seus artigos na FSP permaneçam esquecidos.

Mas o fato é que agora, em função da canção recentemente lançada, TUA CANTIGA, parceria com Cristovão Bastos, pipocou nas redes uma série de artigos de figuras desconhecidas da quase totalidade dos leitores, com novas polêmicas, sendo mais frequentes as que acusam Chico de, além de velho, decadente, “datado” e ultrapassado, ser machista que não representa as mulheres contemporâneas (como se algum dia ele tivesse reivindicado o direito de representar quem quer que fosse, em relação a qualquer assunto).

A frase escolhida para detonar a convulsão foi declarar à amada: “largo mulher e filhos”, de onde se deduz que o autor cultiva o adultério, coisa e tal. Imagino que as puritanas neo-feministas nunca ouviram falar em Simone de Beauvoir, o que não deve vir ao caso, porque esta também pertence ao século passado.

Mas condenam o autor da frase, sem terem se dado conta de que os personagens das canções de Chico – aliás, de qualquer ficcionista – não costumam ser autobiográficos. Que o compositor descreve situações e sentimentos corriqueiros, e até comuns, concordando ou não com eles. E que a criação artística é livre, ao contrário de uma tese acadêmica.

Mas, se for pelo caminho dos zeladores da nova moral, vamos nos preparar para a queima de livros clássicos dos séculos anteriores e para a censura aos maiores autores do cancioneiro popular do século XX. Na real, o que esse tipo de gente não admite é o sucesso de compositores que ocupam a mídia há mais de meio século.

No caso específico, condena a obra e os autores, sem ter ideia de que o lundu feito por Cristóvão, estilo musical quase extinto, herança dos escravos, serviu de inspiração para Chico criar uma letra condizente, com imagens e expressões raras no linguajar atual.

Mas pelo visto, isso tudo é sutileza demais para tempos em que uma reflexão não pode ocupar mais do que 140 caracteres. Os novos reguladores da moralidade pública, representando a intolerância que vem ganhando adeptos no planeta, mostram sua cara amoldada para os tempos de Temer, de Trump, de Bolsonaro, de Crivella e outros fundamentalistas que ameaçam a liberdade de ideias, de criação e de opção de vida.

Por Diario do Centro do Mundo -  12 de agosto de 2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

LEITURA DE FIM DE SEMANA

Que tempos

               Ruy Castro
Não frequento missas, exceto as de sétimo dia, mas ouvi dizer que alguns padres, perigosamente afinados com o profano, estavam servindo hóstias sem glúten a seus fiéis. Enxerguei nisso o ápice da corrente campanha de desmoralização do glúten, uma inocente proteína presente na preparação de certos cereais e promovida a "bête noire" dos alimentos –daí tantos produtos ostentarem hoje na embalagem a frase "Não contém glúten", como se isso garantisse a saúde e a vida eterna. Alimentarmente incorreto e banido até do altar, o que seria do glúten?

Por sorte, a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos –uma espécie de Comissão de Constituição e Justiça do Vaticano relativa à liturgia – chamou às falas esses padres mais afoitos. Para ela, o glúten está no trigo de que se fazem as hóstias desde os pródromos da Igreja e, por isso, é tão sagrado quanto a própria hóstia – que, afinal, representa o corpo de Cristo. E, que se saiba, Cristo não era intolerante ao glúten.

Que tempos. Eu me pergunto o que H. G. Wells e Aldous Huxley achariam se vivessem hoje e soubessem que a inteligência artificial está evoluindo tão depressa que, em breve, o ser humano não conseguirá programar os robôs na velocidade que eles exigirão. E que isso provocará uma depressão em massa – não nos humanos, mas nos robôs, que precisarão de terapia.

E o que estarão pensando aqueles para quem maconha era sinônimo de rebeldia, diante da atual oferta de produtos industriais derivados da cannabis? Espaguete, molho pesto, mostarda, brownie, barra de granola, chá para cólicas menstruais, sabonete, xampu, protetor solar, hidratante, creme antirrugas, remédio para calos, óculos, cachimbo, biquíni, tênis, chinelo de dedo – e tudo pelas grandes grifes.

Bob Marley, quem diria, acabou em Wall Street.

domingo, 16 de julho de 2017

LEITURA DE DOMINGO

Moro cumpriu o que prometeu. Agora pode se aposentar – ou ir pro STF

                    Nirlando Beirão
O juiz Sergio Moro antecipou-se à comparação eventualmente perigosa com o 14 de Julho – quando a França derrubou, na Bastilha, o regime dos autocratas – para fazer aquilo para o que a Operação Lava-Jato foi criada.

É o ato final do impeachment – que apeou o PT do poder e, agora, impede Lula de disputar e, como sugerem as pesquisas, possivelmente vencer a eleição presidencial de 2018.

Moro diz que não faz política. A História o julgará.

Ele pode agora se aposentar. Cumpriu sua missão. O “mercado”, eufórico, agradece. Ficou claro que aos senhores do capital não importa se na Presidência estiver o Marcola ou o Fernandinho Beira-Mar. Eles seriam bem-vindos, desde que as “reformas” avancem.

A lógica da condenação do Lula, sem as provas da “materialidade”, como reconhece o próprio Moro, encontra amparo numa certa “doutrina moderna” invocada pelo procurador Deltran Dallagnol em sua tese de mestrado nos EUA – e publicada em livro aqui no Brasil.

Para acusar alguém de possuir um imóvel, você não precisa, por exemplo, exibir o certificado de propriedade do dito-cujo, uma simples escritura. Basta você se guiar por “indícios”, “suposições”, “suspeitas” ou mesmo se deixar guiar por convicções ideológicas. É Dallagnol quem diz. A subjetividade do juiz se sobrepõe à realidade dos fatos.

Ah, e as delações, claro. Mesmo que impossíveis de serem provadas.

O Power Point do coordenador da Lava-Jato e a sentença do juiz Moro se abastecem da “dúvida razoável”. Ela é suficiente para decretar a punição dos adversários – enquanto os aliados continuam bailando o minueto do poder.

No seu livro, Dallagnol não se acanha sequer em chamar às falas a atual presidente do Supremo, ministra Carmen Lúcia, acusada de ser racional e fria naquele momento do destempero emocional do chamado “Mensalão”. “Para a condenação”, divergiu à época a ministra, “exige-se certeza, não bastando, sequer, a grande probabilidade”.

Buscando respaldo em citações convenientes (sem esquecer Moro) e na jurisprudência providencial à sua tese, Dallagnol escreve que o cuidado tomado por Carmen Lúcia em não promover injustiças “gera uma carga simbólica de que condenações só poderiam acontecer quando se chega a 100% de certeza, que é o que os estudos modernos dizem que não existem”.

Na quarta-feira, 12, a Lava-Jato dispensou todo disfarce e disse afinal a que veio.

A dúvida que me fica é se a Constituição dá de fato a um juiz de primeira instância a prerrogativa de pautar quem pode e quem não pode disputar uma eleição presidencial. Mas isso é outra questão.

http://noticias.r7.com/blogs/nirlando-beirao/

domingo, 2 de julho de 2017

LEITURA DE DOMINGO

Argumentar "Quem votou na Dilma fez Temer presidente" é infantil e desonesto

Jornalista critica argumentação nas redes sociais que responsabiliza eleitores de Dilma por Temer presidente. "Sabemos que quem elegeu Temer foi o Poder Econômico, a elite e o Congresso".

               Cefas Carvalho
Este texto vai sem eufemismo e sem meias palavras.

Michel Temer, golpista que ocupa ilegitimamente a presidência tornou-se esta semana o primeiro no exercício do cargo a ser denunciado pela Procuradoria Geral da República.

Foi gravado em áudio onde concorda com a compra do silêncio de um presidiário, Eduardo Cunha, aquele que iniciou o impeachment de Dilma.

Temer também está envolvido com propina, corrupção passiva e formação de quadrilha, tudo com provas, gravações, vídeos, contas etc.

Mas, não é disso que este texto quer falar, isso é só um preâmbulo. O que quero falar é que em pleno junho de 2017, após tudo isso e todos os escândalos envolvendo o núcleo duro de Temer (Henrique, Jucá, Geddel, Padilha, Moreira, Cunha) ainda tem gente que se sai nas redes sociais com um "você que votou em Dilma foi quem votou em Temer e colocou ele na presidência".

É um argumento tão primário que nem debato. Prefiro crer em ingenuidade, ódio antiPT ou desonestidade intectual do que em coisas piores.

Mas, como li esta pérola meia dúzia de vezes nas últimas 24 horas decidi me deter sobre isso. Vamos lá:

Quem votou em Dilma, votou em Dilma. Para ocupar a presidência. De janeiro de 2015 a dezembro de 2018. Simples assim. Vice é um cargo previsto na Constituição, é normal sua existência, mas ele é eleito para isso: para ser vice. Ocupar provisoriamente o cargo em caso de viagem ou doença do titular. Definitivamente, em caso de morte.

Perdoem-me as maiúsculas, mas, vice NÃO é eleito para conspirar com seu partido (supostamente aliado, senão o cidadão não seria vice) contra o/a titular.

Faça um teste simples: Para quem é do RN, você votou em Robinson Faria? Pois é. Votou também em Fábio Dantas, não é? Mas, para ser vice-governador, não para conspirar contra Robinson, nem instigar a cassação do mandato dele.

Votou em Henrique Alves? Nem lembra o nome do vice dele, não é? Pois é. Era João Maia, do PR. Se Henrique fosse eleito e João Maia conspirasse para derruba-lo você se sairia com o argumento "Ah, mas você não pode reclamar, que votou em João Maia para governador"?

Gosta de Dória, prefeito de São Paulo? Sabe quem é o vice dele? E de Crivella, prefeito do Rio?

Vice é eleito em uma composição política. Está lá para essa composição. Em um mundo perfeito, para ajudar. No mundo real, não atrapalhando, está ótimo, como José Alencar, vice de Lula e Marco Maciel, vice de FHC.

Outro argumento: "Ah, mas Dilma escolheu Temer para vice".

Não, querido, o disputante ao cargo não "escolhe" o seu candidato a vice, como se num jogo de baralho entre amigos. Trata-se de uma intrincada composição política, na qual o partido aliado (no caso o PMDB) escolhe o nome para acompanhar o titular. Hoje, sabe-se que Dilma jamais confiou totalmente em Temer. Mesmo entre o PMDB, há peemedebistas que o odeiam, vide Jarbas Vasconcelos, Roberto Requião, Renan Calheiros e Kátia Abreu.

E você e eu sabemos que quem elegeu Temer foi o Poder Econômico (que agora cobra a fatura, vide as Reformas Trabalhista e Previdenciária), a elite (sim, querido, não estamos nos anos 70, mas o termo funciona como uma luva) e o Congresso (ouça novamente os áudios de Jucá e confira a atuação dos congressistas que você elegeu).

Em suma, reveja seus conceitos políticos, leia um pouco mais, abra a mente e abandone as frases feitas. Conselho de amigo.

E para finalizar um último argumento: Se você "não tem culpa por Temer estar lá" porque não votou na Dilma, então não deveria estar pedindo a queda de Temer desde o começo já que eleito foi justamente na chapa de Dilma, que você odeia? Pense nisso.

http://www.potiguarnoticias.com.br/noticias/35502/argumentar-quem-votou-na-dilma-fez-temer-presidente-e-infantil-e-desonesto

domingo, 28 de maio de 2017

LEITURA DE DOMINGO

Fobia de fumante
                Paulo Germano
Perderei todos os meus leitores neste exato instante, não será fácil, mas paciência: eu fumo. Pronto.

Agora, além dos riscos de câncer, enfisema, tuberculose, otite, infarto, trombose, diabetes e dente amarelo, ainda preciso conviver com o desprezo do mundo. Primeiro, porque sou burro — estou destruindo a minha própria vida. Segundo, porque sou uma praga social — estou destruindo a vida dos outros.

Como é que a RBS dá espaço para um degenerado, um mau exemplo, um chinelão como esse?

De fato, além dos riscos de câncer, enfisema, tuberculose, otite, infarto, trombose, diabetes e dente amarelo, corro o risco de ser demitido na segunda-feira — isso se eu tiver sorte. Não duvido que um bando de eugenistas me atire em um campo de concentração com outros fumantes sem-vergonha.

Mas justiça seja feita: alguns, talvez, não me odiarão tanto. Vão me chamar de estúpido com aquele jeitinho mais solidário:

— Um moço tão jovem e inteligente, como pode blá-blá-blá.

— Me preocupo com sua saúde, então faça uma força e blá-blá-blá.

Não adiantará eu dizer o óbvio, e não há vitimização nesse óbvio: eu sou doente. O vício em nicotina, a dependência psíquica, essa é uma doença difícil de curar — ao menos tem sido difícil para mim — e, se eu pudesse voltar 20 anos, jamais teria botado o primeiro cigarro na boca, mas botei, até gostei, ainda gosto, mas fumo no meu canto, longe dos outros, saio de perto, me constranjo, e nada disso impede os não fumantes, esses seres superiores que pisoteiam os inferiores, de me apontarem o dedo com sermões exaustivos, invasivos e, acima de tudo, inúteis.

É evidente que errei quando comecei a fumar. Quanto a isso, não há discussão. O que me choca é justamente essa ausência de sensibilidade com o erro, com o pecado — porque, se não há pecado, não há misericórdia, não há piedade, não há compaixão. E Deus me livre de uma sociedade sem compaixão.

A impressão é de que a moral de hoje, com essa gana de corrigir o comportamento alheio, como se ninguém pudesse esbarrar em limitações mentais ou emocionais, bebe muito na inspiração fascista. Verdade que agora é moda falar em fascismo, usa-se "fascista" para atacar qualquer adversário político — assim como usa-se "surreal" para qualquer patetice inusitada —, mas o fascismo é, no fundo, uma filosofia civil, e não um tipo específico de regime ou governo.

O fascismo se manifesta como um agente moral, obstinado em gerar cidadãos melhores por meio da repressão. E o fascista não se considera autoritário, ele se considera um redentor da espécie humana. Ele sempre quer o bem de todos, inclusive o bem de quem ele persegue. Outro argumento fascista é o da praga social:

— Quer se matar sozinho, se mate. Mas não me obrigue a conviver com sua fumaça.

Eu compreendo. É tolerável conviver com a fumaça de indústrias, caminhões, fábricas e chaminés, mas a fumaça de um fumante, não — porque o fumante é um burro que destrói a própria vida e a vida dos outros.

Obrigado aos que me acompanharam até aqui. Sei que hoje perdi todos os meus leitores.

domingo, 21 de maio de 2017

LEITURA DE DOMINGO

TEMER, MORO, OS ‘VERDADEIROS COMUNISTAS” E "AS RUAS" 

  Carlos Augusto Bissón
É preciso que haja coerência. Se eu, nós e boa parte da esquerda acreditamos que a classe média foi para a rua pedir a queda de Dilma não exatamente pela corrupção, mas por rejeição ideológica ao PT, atiçada pela imprensa num quadro de retração econômica - a qual acabou com a farra de consumo protagonizada por ela no governo Lula - então, Temer tem toda a razão, do ponto de vista dele, não do meu, friso, em não renunciar. Porque ele sabe, senti isto no depoimento dele nesta tarde (20/05), que é improvável que a chamada “massa coxinha” vá para as ruas pedir sua queda. 

O que eles queriam já conseguiram.Uma das evidências disso é que a Folha e o Estadão já se colocaram no papel de “assessores de imprensa” de Temer chamando “especialistas” para sugerir que houve “edição” nas gravações da conversa entre Joesley Batista e Temer (foto). Isso paralisa a esquerda, já que ela sempre afirmou que a imprensa faz “vazamentos seletivos” contra o PT. A direita não brinca em serviço. É verdade que em trechos fundamentais – como as menções a Eduardo Cunha – os jornais dizem que não houve cortes. Isto, porém, está no corpo da notícia, não nas manchetes. E são as manchetes que determinam a opinião pública do país.

O drama brasileiro é que, diante do mais devastador conjunto de denúncias contra o sistema político brasileiro jamais feita, é provável, infelizmente, que boa parte da população se mantenha apática – a não ser que novas revelações bombásticas alterem essa posição. Isto num momento em que as declarações do dono da JBS deixam claro que a compra de políticos no Brasil – mais de 1800, segundo Joesley - é regra, e não exceção, como quiseram nos escandalizar com aquele troço de Mensalão. 

Num momento, repito, em que os valores astronômicos envolvendo as operações de compra e suborno da JBS também escarram para a sociedade aquilo que a ironia brilhante da Denise Cogo detectou: “O empresariado brasileiro parece todo comunista, tamanha a profundidade dos laços com o setor público e a dependência do Estado. Capitalista é o povo brasileiro que tem que se contentar com o Estado mínimo que eles defendem pra nós." Sim, pois como alguém disse no Facebook, os maiores propagandistas das virtudes da livre iniciativa e do capitalismo neste país são os pequenos e médios comerciantes que pensam que são “grandes empresários” por vender cacarecos à classe C. 

O fato é que estamos diante do que os marxistas chamam de “condições objetivas” para uma reforma geral do Brasil – mas, a sociedade não se move, inclusive por falta de agenda política transformadora, a qual nem esquerda nem direita parecem interessadas em produzir. Isto, porém, já sabíamos. 

O país avacalha qualquer coisa, até Marx. Notem que, neste final de semana, já há uma certa retração na perplexidade nacional. O dólar voltou a cair, após ter sofrido a maior alta dos últimos 18 anos. Joesley negou que tivesse comprado juízes, ato de legítima de defesa, já que é com o Judiciário – peça essencial na sustentação corrupta desta pseudo-república – que ele está negociando sua delação premiada. E, por fim, o senhor Sergio Moro – que “não sabia” que Eduardo Cunha recebia mesada, mesmo preso – está liberado, enfim,diante das denúncias contra Temer e Aécio Neves, para prender Lula sem provas consistentes. Não gostou do que leu ? Eu também não. Então, vá pra rua protestar, meu caro. O Brasil precisa de você.

domingo, 2 de abril de 2017

LEITURA DE DOMINGO

HOMENS PATÉTICOS, MULHERES ESPERTAS: O CASO LASIER MARTINS

    Carlos Augusto Bissón

Eu não sei quem está falando a verdade neste relato, gravíssimo, enfatizo, de que o Senador Lasier Martins (PSD-RS) teria agredido sua mulher, a também jornalista Janice Santos. Uma coisa neste caso, porém, me chama a atenção. 

Lasier Martins deve ter entre 73 e 76 anos; Janice, da qual ele está se separando, 38. Uma enorme diferença de idade, a qual era maior ainda quando se conheceram (2012). Pois, eu não sei quanto a vocês, mas uma mulher 25 ou 35 anos mais jovem do que eu (tenho 57) só se aproxima de mim para perguntar se preciso de ajuda para atravessar a rua. Sou casado, mas, se fosse solteiro, seria a mesma coisa. É o ciclo natural da vida. A gente se torna "invisível" para os mais jovens. 

Minha mulher diz que há um certo tipo de homem que acredita que só as mulheres envelhecem. Lasier parece se incluir neste grupo. O que estou querendo dizer com isso? Ora, vi ao longo da semana uma série de insinuações de que Janice poderia ser uma vigarista, tentando tirar proveito do senador. São amigos do Lasier e meus também. Até Olivio Dutra, imaginem, foi invocado, na tentativa de se provar que o RS elegeu o senador certo...

Sei lá, me pergunto se realmente acreditam que possa haver atração sexual e afetividade contínua - a primeira mais do que a segunda - por parte de uma mulher na faixa dos 30 por um homem de 70. Só em novela da Globo. E olhe lá... Logo, existem interesses bem concretos por parte de mulheres espertas que se envolvem com anciãos famosos. E interesses contrariados provocam reações imprevisíveis. Logo, mais uma vez, se Lasier não sabe disso, é não só um tolo vaidoso com uma figura patética. O fato é que um dos dois (ou os dois) está mentindo ou distorcendo os fatos. E, pior, cometendo um crime. Violência é (quase sempre) injustificável, sobretudo de um homem contra uma mulher. 

Lasier Martins diz que Janice "é louca". Pela primeira vez, concordo com ele. Se não fosse, estaria com ele ?

domingo, 12 de março de 2017

LEITURA DE DOMINGO

Contatos Imediatos do Tercero Distrito

Steve Johnson de Almeida

Local: Km 51 da Lomba Grande do Tercero Distrito.
Data: Um poco dispois da meia noite, numa noite do inverno de Mile Novecentos e Oitenta e pocos.

Naquela noite o umedescimento de verbo no Bolicho do Leopoldino se espichara um pouco além da conta... sabicumé, assunto de Lobisôme, Boi Tatáta, Van Pir sempre fazem muito sucesso! Despedi da cumpanherada, amuntei no cavalo e garrei o rumo da estânça.

Ao cruzar a Lombra Grande, famosa pelas estória de assombro, Ronnie Vão se põe em alerta! Todo arripiado com as crina em pé! Eu, muito embora seje macho, mui valente, cosa e tal, fico sestroso, olhando prá tudo quanto é lado mas chuleando nada vê!
Pois quando tâmo naquele ponto donde vastrá prá tráis ou segui em frente dá no mesmo, sobreveio o cagaço medonho!!!

A cosa veio por riba de nóis! Uma luz cegante acompanhada dum estampido ensurdante seguido dum zunido estonteante, vindo sabe-se lá donde! Ronnie Vão tastaviô no corcóvo e deitô o cabelo campo adentro me dexando órfo, estirado na frente da apariçã! "Meliór seria eu tê batido com as bota no tombo"... pensei ao me alevantá e dá de cara com aquele obejeto dos inferno, cuspindo fogo pelas venta e relampeando suas lamparina piscante no meio do breu da noite. Daí pensei: "Tô frito em poca banha! Entre a abiduçã e o chamusquêio...Se ficá o bicho péga, se corrê o lêize comi!"

Nestas hora o índio vê a lavora perdida e afroxa o esficter ao Deus dará. Me enchi das corage e encarei meu fim como fato consumado... Nisto uma das janela se abre e uma criatura de vaga aparença humanóide, muito da isquisita, charleando uma fala muito da estranha diz de drentro do apareio: "Dããêêê minha véia! Tudo chuchu beleza? Tens fogo?"

Pois bem, paiêro aceso, causo arresorvido! O UFO seguiu o seu caminho via láctea afora e eu o meu... Se era de Alfa Centauro ou de Viamão a praca eu não vi! Só sei que dispois desta experiênça eu fiquei com a convicçã de que realmente nóis não tâmo sós neste Universo sem portera!

Bueno, prá encerrá eu queria dizê que aberto a visitaçã pública no Museu UFO de Ciênças do Tercero Distrito, em lugar de destaque, temo a comprovaçã centífica da veracidade deste causo: a cuéca samba vanerão usada durante o contato, com os fundil totalmente mascado...

domingo, 5 de março de 2017

LEITURA DE DOMINGO

Teoria do caranguejo

                 Julio Cortázar
Tinham construído a casa no limite da selva, orientada para o sul evitando assim que a umidade dos ventos de março se somasse ao calor que a sombra das árvores atenuava um pouco.

Quando Winnie chegava

Deixou o parágrafo no meio, empurrou a máquina de escrever e acendeu o cachimbo. Winnie. O problema, como sempre, era Winnie. Quando tratava dela a fluidez se coagulava numa espécie de

Suspirando, apagou numa espécie de, porque detestava as facilidades do idioma, e pensou que não poderia continuar trabalhando até depois do jantar; as crianças logo iam chegar da escola e ele teria que preparar o banho, fazer a comida e ajudá-las nos seus

Por que no meio de uma enumeração tão simples havia como um buraco, uma impossibilidade de continuar? Era incompreensível, pois tinha passagens muito mais árduas que se construíam sem nenhum esforço, como se de algum modo já estivessem prontas para incidir na linguagem. Obviamente, nesses casos o melhor era

Largando o lápis, pensou que tudo se tornava abstrato demais; os obviamente os nesses casos, a velha tendência a fugir de situações definidas. Tinha a impressão de estar se afastando cada vez mais das fontes, de organizar quebra-cabeças de palavras que por sua vez

Fechou abruptamente o caderno e saiu para a varanda.

Impossível deixar essa palavra, varanda.

Triunfo, Madri, nº 418, 6 de junho de 1970

domingo, 26 de fevereiro de 2017

LEITURA DE DOMINGO

Crônica de Carnaval - 12 de Fevereiro de 1893

     Machado de Assis
FALECI ONTEM, pelas sete horas da manhã. Já se entende que foi sonho; mas tão perfeita a sensação da morte, a despegar-me da vida tão ao vivo o caminho do céu, que posso dizer haver tido um antegosto da bem-aventurança.

Ia subindo, ouvia já os coros de anjos, quando a própria figura do Senhor me apareceu em pleno infinito. Tinha uma ânfora nas mãos, onde espremera algumas dúzias de nuvens grossas, e inclinava-a sobre esta cidade, sem esperar procissões que lhe pedissem chuva. A sabedoria divina mostrava conhecer bem o que convinha ao Rio de Janeiro; ela dizia enquanto ia entornando a ânfora:

— Esta gente vai sair três dias à rua com o furor que traz toda a restauração. Convidada a divertir-se no inverno, preferiu o verão não por ser melhor, mas por ser a própria quadra antiga, a do costume, a do calendário, a da tradição, a de Roma, a de Veneza, a de Paris. Com temperatura alta, podem vir transtornos de saúde, — algum aparecimento de febre, que os seus vizinhos chamem logo amarela, não lhe podendo chamar pior... Sim, chovamos sobre o Rio de Janeiro.

Alegrei-me com isto, posto já não pertencesse à terra. Os meus patrícios iam ter um bom carnaval, — velha festa, que está a fazer quarenta anos, se já os não fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colônia e vindo da metrópole. Não pensem os rapazes de vinte e dous anos que o entrudo era alguma cousa semelhante às tentativas de ressurreição, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d'água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo, — chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limões de cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, não contando as bacias d'água despejadas a traição. Mais de uma tuberculose caminhou em três dias o espaço de três meses.

Quando menos, nasciam as constipações e bronquites, ronquidões e tosses, e era a vez dos boticários, porque, naqueles tempos infantes e rudes, os farmacêuticos ainda eram boticários.

Cheguei a lembrar-me, apesar de ir caminho do céu, dos episódios de amor que vinham com o entrudo. O limão de cera, que de longe podia escalavrar um olho, tinha um ofício mais próximo e inteiramente secreto. Servia a molhar o peito das moças; era esmigalhado nele pela mão do próprio namorado, maciamente, amorosamente, interminavelmente . . .

Um dia veio, não Malesherbes, mas o carnaval, e deu à arte da loucura uma nova feição. A alta roda acudiu de pronto; organizaram-se sociedades, cujos nomes e gestos ainda esta semana foram lembrados por um colaborador da Gazeta. Toda a fina flor da capital entrou na dança. Os personagens históricos e os vestuários pitorescos, um doge, um mosqueteiro, Carlos V, tudo ressurgia às mãos dos alfaiates, diante de figurinos, à força de dinheiro. Pegou o custo das sociedades, as que morriam eram substituídas, com vária sorte, mas igual animação.

Naturalmente, o sufrágio universal, que penetra em todas as instituições deste século, alargou as proporções do carnaval, e as sociedades multiplicaram-se, com os homens. O gosto carnavalesco invadiu todos os espíritos, todos os bolsos, todas as ruas. Evohé! Bacchus est roi! dizia um coro de não sei que peça do Alcazar Lírico, — outra instituição velha, mas velha e morta. Ficou o coro, com esta simples emenda: Evohé! Momus est roi!

Não obstante as festas da terra, ia eu subindo. subindo, até que cheguei à porta do céu, onde S. Pedro parecia, aguardar-me, cheio de riso.

— Guardaste para ti tesouros no céu ou na terra? perguntou-me.

Se crer em tesouros escondidos na terra é o mesmo que escondê-los, confesso o meu pecado, porque acredito nos que estão no morro do Castelo, como nos cento e cinqüenta contos fortes do homem que está preso em Valhadolide. São fortes; segundo o meu criado José Rodrigues, quer dizer que são trezentos contos. Creio neles. Em vida fui amigo de dinheiro, mas havia de trazer mistério. As grandes riquezas deixadas no Castelo pelos jesuítas foram uma das minhas crenças da meninice e da mocidade; morri com ela, e agora mesmo ainda a tenho. Perdi saúde, ilusões, amigos e até dinheiro, mas a crença nos tesouros do Castelo não a perdi. Imaginei a chegada da ordem que expulsava os jesuítas. Os padres do colégio não tinham tempo nem me os de levar as riquezas consigo; depressa, depressa, ao subterrâneo, venham os ricos cálices de prata, os cofres de brilhantes, safiras, corais, as dobras e os dobrões, os vastos sacos cheios de moeda, cem, duzentos, quinhentos sacos. Puxa, puxa este Santo Inácio de ouro maciço, com olhos de brilhantes, dentes de pérolas, toca a esconder, a guardar, a fechar...

— Pára, interrompeu-me S. Paulo; falas como se estivesses a representar alguma cousa. A imaginação dos homens é perversa. Os homens sonham facilmente com dinheiro. Os tesouros que valem são os que se guardam no céu, onde a ferrugem os não come.

— Não era o dinheiro que me fascinava em vida, era o mistério. Eram os trinta ou quarenta milhões de cruzados escondidos, há mais de século, no Castelo; são os trezentos contos do preso de Valhadolide. O mistério, sempre o mistério.

— Sim, vejo que amas o mistério. Explicar-me-ás este de um grande número de almas que foram daqui para o Brasil e tornaram sem se poderem incorporar?

— Quando, divino apóstolo?

— Ainda agora.

— Há de ser obra de um médico italiano, um doutor ... esperai... creio que Abel, um doutor Abel, sim Abel... É um facultativo ilustre. Descobriu um processo para esterilizar as mulheres. Correram muitas, dizem; afirma-se que nenhuma pode já conceber; estão prontas.

— As pobres almas voltavam tristes e desconsoladas; não sabiam a que atribuir essa repulsa. Qual é o fim do processo esterilizador? — Político. Diminuir a população brasileira, à proporção que a italiana vai entrando; idéia de Crispi, aceita por Giolitti, confiada a Abel ...

— Crispi foi sempre tenebroso.

— Não digo que não; mas, em suma, há um fim político, e os fins políticos são sempre elevados ... Panamá, que não tinha fim político ...

— Adeus, tu és muito falador. O céu é dos grandes silêncios contemplativos.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

LEITURA DE DOMINGO

Betsy
          Rubem Fonseca
Betsy esperou a volta do homem para morrer.


Antes da viagem ele notara que Betsy mostrava um apetite incomum. Depois surgiram outros sintomas, ingestão excessiva de água, incontinência urinária. O único problema de Betsy até então era a catarata numa das vistas. Ela não gostava de sair, mas antes da viagem entrara inesperadamente com ele no elevador e os dois passearam no calçadão da praia, algo que ela nunca fizera. No dia em que o homem chegou, Betsy teve o derrame e ficou sem comer. Vinte dias sem comer, deitada na cama com o homem. Os especialistas consultados disseram que não havia nada a fazer. Betsy só saia da cama para beber água.

O homem permaneceu com Betsy na cama durante toda a sua agonia, acariciando seu corpo, sentindo com tristeza a magreza de suas ancas. No último dia, Betsy, muito quieta, os olhos azuis abertos, fitou o homem com o mesmo olhar de sempre, que indicava o conforto e o prazer produzidos pela presença e pelos carinhos dele. Começou a tremer e ele a abraçou com mais força. Sentindo que os membros dela estavam frios, o homem arranjou para Betsy uma posição confortável na cama. Então ela estendeu o corpo, parecendo se espreguiçar, e virou a cabeça para trás, num gesto cheio de langor. Depois esticou o corpo ainda mais e suspirou, uma exalação forte. O homem pensou que Betsy havia morrido. Mas alguns segundos depois ela emitiu novo suspiro. Horrorizado com sua meticulosa atenção o homem contou, um a um, todos os suspiros de Betsy. Com o intervalo de alguns segundos ela exalou nove suspiros iguais, a língua para fora, pendendo do lado da boca. Logo ela passou a golpear a barriga com os dois pés juntos, como fazia ocasionalmente, apenas com mais violência. Em seguida, ficou imóvel. O homem passou a mão de leve no corpo de Betsy. Ela se espreguiçou e alongou os membros pela última vez. Estava morta. Agora, o homem sabia, ela estava morta.

A noite inteira o homem passou acordado ao lado de Betsy, afagando-a de leve, em silêncio, sem saber o que dizer. Eles haviam vivido juntos dezoito anos.

De manhã, ele a deixou na cama e foi até a cozinha e preparou um café puro. Foi tomar o café na sala. A casa nunca estivera tão vazia e triste.
Felizmente o homem não jogara fora a caixa de papelão do liqüidificador. Voltou para o quarto. Cuidadosamente, colocou o corpo de Betsy dentro da caixa. Com a caixa debaixo do braço caminhou para a porta. Antes de abri-la e sair, enxugou os olhos. Não queria que o vissem assim.

Histórias de Amor - Rubem Fonseca - 1997

domingo, 5 de fevereiro de 2017

LEITURA DE DOMINGO

SOBRE TARADOS, CRISTÃOS, MARISA LETÍCIA E LULA

         Carlos Augusto Bissón
Pois, meus caros, ao ver, nos últimos dias, a satisfação quase erótica por parte de alguns aqui do Facebook em relação à morte de Marisa Letícia, os insultos que foram dirigidos a ela, a celebração catártica pelo fim de uma vida, realizada, inclusive, por médicos (!!!) jovens, penso, apesar de ser não ser psicanalista, em Freud. Porque os ataques a Lula já ultrapassaram em muito o terreno da ideologia e da política, invadindo os campos da psicanálise e da sexualidade. 

Freud falava em pulsões: a sexual (Eros) dirigida à vida, e a do Tânatos, agressiva e direcionada à morte. E, desde que o país assistiu ao fim, lá por volta de 2013, daquela extraordinária farra de consumo gozada (o Eros) pela classe média – e proporcionada, frise-se, pela política econômica de Lula –, o que vemos é o poder destruidor e difamatório (o Tânatos), por parte de quem se convencionou chamar de “coxinhas” – digo em relação à reputação de quem quer que seja vinculado à esquerda. Como se o aumento do preço da gasolina, as dificuldades de comprar um automóvel novo e a restrição das viagens a Miami, fosse uma espécie de “coitus interruptus”...Estamos, nem eu suspeitava disso, cercados de tarados. Liga-se a tevê e se detecta Carlos Alberto Sardenberg e Merval Pereira à beira da ejaculação na Globo News sempre que se levanta alguma “suspeita” em relação à Lula. Cuecas e calcinhas de paneleiros e coxinhas devem estar se molhando repetidamente já há quase dois anos diante da perspectiva de que Lula seja preso...na semana que vem...em 30 dias...em 60 dias, como disse aquele delegado tarado da Polícia Federal. E, até agora, nada. 

Nenhuma evidência de crime palpável, aceitável até para os xexelentos tribunais brasileiros, foi encontrada para justificar a prisão do ex-presidente. Ainda assim, os tarados insistem que “ele roubou milhões”. Mas, quando? E de onde ? Quais são os chamados sinais exteriores de riqueza de Lula? E nem estou garantindo que Lula é completamente inocente. Mas, repito, onde estão as provas incontestáveis de crime ? Irredutíveis na justificativa de suas próprias fantasias e delírios sexuais – o que inclui as hipóteses de que houve simulação do AVC de Marisa Letícia e, posteriormente, que sua morte é uma “armação” (!!!) - os tarados dizem que “com o tempo, elas (as provas) vão aparecer”. Provavelmente, acalentam o sonho de que algum cafetão delator acabe, por fim, entregando Lula, trazendo-lhes, enfim, o seu sonhado orgasmo cívico, justiceiro e redentor de seus recalques. Até agora, porém, não há evidências de que isto se torne realidade. Por fim, achei divertidíssima e verdadeira, a afirmação do Jari da Rocha de que essa gente que torcia pela morte de Marisa Letícia vai a missa regularmente...

Olhem, no Brasil, o catolicismo criou ótimos católicos, mas péssimos cristãos. Haja vista a tremenda desigualdade social deste país, permitida pelo olhar complacente dos carolas de todos os segmentos sociais. Acharam esse texto um disparate, um absurdo, uma loucura ? Comparado ao caráter demencial do que se anda lendo no Facebook por estes dias, não há motivo para espanto. Isto é o Brasil de hoje, onde a racionalidade e a ética estão em coma induzido pela mídia há muito tempo.

domingo, 29 de janeiro de 2017

LEITURA DE DOMINGO

De volta ao primeiro beijo

              Moacyr Scliar
"O primeiro beijo é uma coisa muito falada. Sem dúvida é uma experiência muito marcante, inesquecível. O primeiro beijo é uma maturação, uma descoberta. Ao mesmo tempo, para alguns, ele pode ser um monstro assustador", diz o cineasta Esmir Filho, diretor de "Saliva". O filme conta como Marina, uma garota de 12 anos, é pressionada a dar o seu primeiro beijo no experiente Gustavo.
Folhateen

TINHA ACABADO de ler a matéria sobre o primeiro beijo, no pequeno apartamento em que morava desde que ficara viúvo, anos antes, quando (coincidência impressionante, concluiria depois) o telefone tocou. Era uma mulher, de voz fraca e rouca, que ele de início não identificou: - Aqui fala a Marília - disse a voz. Deus, a Marília! A sua primeira namorada, a garota que ele beijara (o primeiro beijo de sua vida) décadas antes! 

De imediato recordou a garota simpática, sorridente, com quem passeava de mãos dadas. Nunca mais a vira, ainda que freqüentemente a recordasse - e agora, ela lhe ligava. Como que adivinhando o pensamento dele, ela explicou: - Estou no hospital, Sérgio. Com uma doença grave... E queria ver você. Pode ser? - Claro - apressou-se ele a dizer - eu vou aí agora mesmo. Anotou rapidamente o endereço, vestiu o casaco, saiu, tomou um táxi. 

No caminho foi evocando aquele namoro, que infelizmente não durara muito tempo -o pai dela, militar, havia sido transferido para o Norte, com o que perdido o contato -mas que o marcara profundamente. Nunca a esquecera, ainda que depois tivesse beijado várias outras moças, uma das quais se tornara a sua companheira de toda a vida, mãe de seus três filhos, avó de seus cinco netos. E não a esquecera por causa daquele primeiro beijo, tão desajeitado quanto ardente.

Chegando ao hospital foi direto ao quarto. Bateu; uma moça abriu-lhe a porta, e era igual à Marília: sua filha. Ele entrou e ali estava ela, sua primeira namorada. Quase não a reconheceu. Envelhecida, devastada pela doença, ela mal lembrava a garota sorridente que ele conhecera. Consternado, aproximou-se, sentou-se junto ao leito. A filha disse que os deixaria a sós: precisava falar com o médico.
Olharam-se, Sérgio e Marília, ele com lágrimas correndo pelo rosto. - Você sabe por que chamei você aqui? -perguntou ela, com esforço. - Porque nunca esqueci você, Sérgio. E nunca esqueci o nosso primeiro beijo, lembra? Na porta da minha casa, depois do cinema... - Claro que lembro, Marília. Eu também nunca esqueci você... - Pois eu queria, Sérgio... Eu queria muito... Que você me beijasse de novo. Você sabe, os médicos não me deram muito tempo... E eu queria levar comigo esta recordação...

Ele levantou-se, aproximou-se dela, beijou os lábios fanados. E aí, como por milagre, o tempo voltou atrás e de repente eles eram os jovenzinhos de décadas antes, beijando-se à porta da casa dela. Mas a emoção era demais para ele: pediu desculpas, tinha de ir. A filha, parada à porta do quarto, agradeceu-lhe: você fez um grande bem à minha mãe. E acrescentou, esperançosa: - Acho que ela agora vai melhorar. Não melhorou. Na semana seguinte, Sérgio viu no jornal o convite para o enterro. Mas, ao contrário do que poderia esperar, apenas sorriu. Tinha descoberto que o primeiro beijo dura para sempre. Ou pelo menos assim queria acreditar.

Folhateen - 10 de junho de 2007

domingo, 22 de janeiro de 2017

LEITURA DE DOMINGO

DELICATESSEN

                     Hilda Hilst
Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. 

Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. 

E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. 

Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(???) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

domingo, 15 de janeiro de 2017

LEITURA DE DOMINGO

 CHICO

                Erico Verissimo
Chamava-se Chico. De quê? Ele mesmo não sabia…
– Gente pobre não tem nome… – costumava dizer.
Tinha sete anos. De dia vendia jornais, de noite apanhava bordoada do irmão mais velho, o Zico, que vivia embriagado.

A mãe havia muitos anos que estava atirada sobre um colchão velho, paralítica, cadavérica, tendo a todas as horas do dia, diante dos olhos baços e sem expressão, o mesmo quadro de misé-ria e desalento: as paredes sórdidas do quarto, donde pendiam molambos, o teto carcomido e cheio de teias de aranha, a janela sem batentes, eterna-mente escancarada, mostrando uma nesga de céu em que nas noites claras se vislumbrava, como uma esmola luminosa, a claridade fugidia de estrelas…

O pai – Chico mal se lembrava disto – morrera por um dia triste de inverno, de peste, e se fora, quase nu, dentro duma carroça velha que ia fazendo tóc-tóc-tóc-tóc. . ., aos solavancos, pela estrada barrenta e sinuosa que ia dar no cemitério.

Chico ouvia sempre dizer que havia lá em cima, no céu, um Deus muito bom e muito severo. que não queria que as crianças dissessem nomes feios nem desobedecessem aos mais velhos. Era um homem muito poderoso, que punha empenho em que todas as cousas na terra andassem direitas e bem feitas.
Surgia, então, na cabecinha do garoto um pro-blema intrincado e insolúvel.

Chico via no mundo (mundo era a cidade em que ele, Chico, morava) gente feliz, rica, alegre; crianças que andavam bem vestidas, que tinham brinquedos surpreendentes e que comiam os doces mais saborosos desta vida. Via, ao mesmo tempo, de Outro lado, os infelizes, os desprotegidos da fortuna, os que rolam pão duro e andavam a ferir os pés descalços no pedregulho das ruas. E o pequeno não podia compreender a razão de tanta desigualdade de sorte no mundo. Como era que Deus, tão bom e tão justo, consentia em que exis-tissem crianças felizes e protegidas, ao mesmo passo que existiam outras, desgraçadas e sós, que, pra ganhar alguns tostões, – magríssimos tostões –, tinham de andar vendendo jornais pelas ruas, à luz adustiva do sol?…

E Chico não compreendia… Não compreendia e ficava pensando, pensando…

Mas não se detinha por muito tempo em tais cogitações, que adivinhava inúteis. A vida ensinara-o a ser prático. Bem sabia que com sonhos e lucubrações não ganharia o seu salário. Por isso se atirava ao trabalho.

– O’ia o Correio da Manhã! O Correeeeio! E assim ia vivendo…