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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

LINCHAMENTO DO BEM

Interessantíssimo texto de Marcelo Mirisola no yahoo

Linchamento do bem

Por Marcelo Mirisola – seg, 1 de set de 2014

Uma pergunta que não quer calar:  Linchar o racismo da branca amarrada no poste, pode? 

Nada de surpreendente no desenrolar do caso da torcedora do Grêmio que xingou  Aranha, goleiro do Santos, de macaco. A infeliz foi (está sendo e será) devidamente linchada pelos detentores do bem,  defensores dos fracos e oprimidos, pelos arautos da moral, dos bons costumes e do politicamente correto - incluídos soberbamente 100% dos habitantes do feicibuque e 100% daquilo que, antigamente, os místicos e os comediantes chamavam de "formadores de opinião". 

Seria mais cômodo se eu fizesse o mesmo. Mas tem um porém.

Esse episódio lamentável remeteu a outro episódio igualmente lamentável.  Queria deixar claro, antes de a patrulha enviar paralelepípedos sobre meus cornos - antes de me acusarem de "racista" - queria dizer que não sou Jesus Cristo para dar a outra face nem pra dizer "quem não tem pecado que atire o primeiro meme, etc, etc".

Ocorre que me recuso a apedrejar quem quer que seja - o que é bem diferente de defender e/ou chancelar a escrotidão e o crime alheio.

Feito o devido prólogo, seguimos em frente.  Ou melhor, já que estamos no Brasil, seguimos para trás. Vamos fazer uma viagem a um passado recente.  Uma viagem ao arborizado bairro do Flamengo, Rio de Janeiro - fevereiro de 2014.

À época, meia dúzia de justiceiros amarraram um garoto negro num poste e o lincharam. Se não me engano, ele havia cometido um assalto. Infringiu o código penal, da mesma forma que a torcedora do Grêmio também infringiu o código penal quando cometeu o crime de injúria racial. Esse é o ponto que vou retomar daqui a pouco, anotem: dois crimes.  A coisa tomou proporções fundamentalistas quando Raquel Sherazade,  âncora do jornal do SBT, acarinhou e prestou solidariedade (lá do jeito dela) aos linchadores do Flamengo.

O problema é que a Sherazade que comprou a versão dos linchadores do garoto negro preso ao poste é surpreendentemente igual ao povo esclarecido que lincha a torcedora do Grêmio agora e que, na época do linchamento do garoto apontou furiosamente a mira de quem? 

Talvez o povinho esclarecido "do bem" tenha realizado o sonho dos linchadores do Flamengo. E talvez tenha ido além. Ou seja. Não somente apoiou o linchamento da torcedora do Grêmio da mesma forma que Sherazade havia acarinhado os linchadores do garoto negro, como linchou. 

E, até agora, não encontraram resistência alguma, muito pelo contrário: continuam linchando a torcedora do Grêmio (Sherazade não teve essa oportunidade).

Alguns dirão: a diferença é que a torcedora do Grêmio é agente do crime, e o garoto vítima de um bando de trogloditas.   

Não é bem assim. A diferença entre o garoto do flamengo e a torcedora do Grêmio consiste no fato de que o primeiro foi amarrado a um poste de cimento e a outra está sendo amarrada a um poste virtual. Ambos são criminosos e ambos são vítimas de trogloditas justiceiros. 

Se eu jogasse para/e com a platéia - como a maioria dos meus coleguinhas de ofício -  e fuzilasse a torcedora do Grêmio, imediatamente reduziria o garoto negro à condição de vítima. Todos são iguais perante à lei, mas infelizmente todos não são iguais perante às paixões. Em outras palavras: fuzilar a torcedora do Grêmio é reconhecer que o garoto negro amarrado ao poste é inferior a ela. Isso sim é racismo. Ninguém é mais coitadinho ou mais vítima do que ninguém.

Não existe medida nem termo para a ignorância humana. Ou não deveria existir. Tanto o garoto como a torcedora do Grêmio - repito - cometeram crimes. Um cometeu o crime de roubo ou assalto e a outra de injúria racial. Existem mais dezenas de crimes tipificados em nosso código penal. A gradação da pena e a punição em si são estabelecidos pela nossa legislação. Ponto final. 

Existe a lei, e somente a lei pode aferir a gravidade de um crime e puní-lo, e essa lei necessariamente deve ser aplicada pelo Estado, jamais por justiceiros - independentemente da "boa causa" e da "vítima" em questão.          
Pois bem, prossigo e pergunto: linchar o racismo da branca amarrada no poste, pode?  

Depreende-se que existe uma espécie de linchamento do bem?  

domingo, 13 de julho de 2014

LEITURA DE DOMINGO

Fulecagem demais para qualquer complexo de vira-latas

             Marcelo Mirisola
Não lembro se foi depois do jogo contra o México ou se foi depois do jogo contra o Chile. Com certeza, foi num desses Jornais Nacionais ufanistas, entre um engano e outro, quer dizer, entre um jogo e outro.  No intervalo daquilo que os marqueteiros  batizaram de Copa das Copas e que no dia 8 de julho acabou virando o fiasco dos fiascos.
Bonner entrevistava Felipão e Parreira. A dupla dinâmica se queixava do grito de guerra da torcida fuleco. A grudenta "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" era mais brochante do que a musiquinha que Fernanda Takai e Paulo Miklos venderam pro Itaú. Felipão sugeriu um pagode, disse que os jogadores se uniam em torno daquela aporrinhação, e o Bonner pôs no ar.  Eu pensei: "Técnico preocupado com musiquinha? Fudeu".

Luis Fernando Veríssimo escreve que uma lavada de dez a zero seria muito melhor que o famigerado sete a um.  Verdade. Segundo Veríssimo, o placar de dez a zero nos levaria para o "terreno do fantástico, do inimaginável, da galhofa cósmica".
Número ímpar machuca. Dos ímpares sete é o mais ferino. Oito a zero não seria tão ruim. A natureza dos pares - e sobretudo do oito - é dar voltas em si mesmo. O oito  sempre acaba redondo, tanto faz se oito ou oitenta. Sete é mais ácido que nove. Sete machuca, sete é corte de lâmina enferrujada. Tétano. Ferida de punhal. Uma incisão nos bagos, no orgulho. Um é o número da honra e do orgulho. Um único gol. O gol de honra.

A conta do orgulho ferido, da humilhação: sete a um.

Voltando a entrevista. Na hora que a dupla Felipão/Parreira conclamou a nação fuleco a providenciar um novo grito de guerra, nessa hora, juro e repito - sem querer ser profeta de retrovisor - a palavra "fudeu" reverberou violentamente na minha cachola.

Nem vou falar dos jogadores chorões, do fato de nossos fulecos entrarem em campo com a mãozinha nos ombros uns dos outros, da infantilidade geral, do ectoplasma nazistóide embutido no hino a capela, dos achaques sempiternos do Galvão Bueno. Bom esquecer da simpatia quase doentia da Fátima Bernardes mas é bom lembrar do prejuízo que o comércio teve, do viaduto que desabou em BH,das prisões arbitrárias e da truculência da polícia e dos defensores da moral, dos bons costumes e da bola rolando. Nem vou falar do Itaquerão ocupado pelazelitebranca que mandou dona Dilma ir tomar no fuleco, de jogar um país inteiro nas costas do Neymar que acabou quebrado porque se trata de uma enxurrada de mentiras que nenhum Atlas suportaria, além do aluvião desgovernado,  todos os maus presságios supracitados e mais o cabelo tingido de morte do Zé Maria Marin.

Tudo começou com um gol contra do Marcelo( pô! isso nao é nome de jogador de futebol! ). Já era o sinal da sombra, da maldição que bordejava sobre nossos cornos desde 195o e que foi trazida de volta para satisfazer o ego de um demagogo. Puta ideia infeliz.

O tiro saiu pela culatra. Lula ressuscitou o complexo de vira-latas. E pior que o complexo de vira-latas é ter que explicar do que se trata. O nome desse novo complexo, que acomete toda a clamídia, é complexo de poodle.

Para os marqueteiros e fazedores de selfie, levar sete gols na semifinal é evidência de um sucesso estrondoso. Vamos fazer de conta que o brasileiro não é mais vira-latas, que aprendeu a fazer um gol na Alemanha, e agora sabe andar sobre as duas patinhas e dissociar política partidária de futebol. Vamos lá!

Para reafirmar nosso novo pedigree só falta trocar Pelé por Maradona.  Soy loco por ti Evita! Porque as chances  de a "presidenta", novamente ela, entregar a taça pro Messi são mais factíveis que a casa da moeda deles. Se bem.. que eu aposto que vai dar Alemanha.

Chega! Bom parar por aqui, antes que alguém me lembre do Fred.

É fulecagem demais pra qualquer complexo de vira-latas.

https://br.noticias.yahoo.com/blogs/autor/marcelo-mirisola/